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entrevista

ENTREVISTAS

Entrevistas com os maiores representantes e chefes da industria naval, petroleira e offshore do Brasil e do Mundo.
Sergio de Albuquerque e Mello - A P-55 certifica a capacidade da indústria offshore brasileira
Sergio de Albuquerque e Mello - A P-55 certifica a capacidade da indústria offshore brasileira
Crédito: Banco de Imagem TN Petróleo
apresentação
Por Beatriz Cardoso

O engenheiro naval Sergio de Albuquerque e Mello, diretor executivo Comercial do Bureau Veritas Brasil, faz essa afirmação respaldado em mais de 30 anos de atuação na indústria offshore brasileira e na experiência internacional vivenciada quando foi vice-presidente corporativo de Petróleo e Gás do Bureau Veritas, com base na sede da empresa, em Paris.

“A P-55 é a primeira plataforma desse tipo e porte projetada e construída integralmente no país. Ou seja: ela deu a chancela à capacidade da indústria naval offshore”, frisa Mello, que participou da classificação de inúmeros projetos e empreendimentos do setor.

Em entrevista exclusiva à TN Petróleo, ele observa que a retomada da indústria naval se deu no país por fatores estratégicos e não somente econômicos. “Foi o pulo do gato do Brasil”, pontua o executivo do Bureau Veritas, que tem hoje em seu portfólio cinco plataformas que vão operar no pré-sal da Bacia de Santos: P-67 e P-70 (OSX Mendes Junior), P-68 e P-71 (Jurong), nas quais responde pela fase de integração e a classificação definitiva das unidades, depois de postas em operação, e a P-76 – cessão onerosa (Technip – Techint).

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O Bureau Veritas (BV) classificou dentro de padrões internacionais de segurança e conformidade a unidade de produção flutuante (FPU) P-55, da Petrobras, que na virada do ano começou a produzir petróleo em lâmina d’água de 1.720 m de profundidade, no Campo de Roncador, na Bacia de Campos. O que a classificação dessa plataforma tem de significativa?

resposta

Em matéria de classificação, a P-55 não tem maiores particularidades em comparação com outras unidades offshore. Sua importância está no fato de ser a primeira plataforma semissubmersível desse porte, projetada, construída e integrada no país. Ela é fruto de um trabalho de muitos anos e deu essa chancela à indústria offshore brasileira. A classificação da unidade, em total conformidade com os padrões internacionais, e a bem-sucedida entrada em operação, dão o recado de que a indústria local tem capacitação total para construir unidades de tais dimensões e especificações para o mercado de petróleo e gás.

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Não são muitos os países do mundo com indústria naval capacitada para executar esse serviço integralmente, não é mesmo?

resposta

É verdade. Para uma unidade de tal tipo e porte temos os habituais fornecedores asiáticos – Coreia do Sul, Cingapura e China. Há outros que poderiam fazer, mas não estão mobilizados, como Estados Unidos e países da Europa com tradição naval. O fato é que essa indústria migrou para a Ásia e não houve maiores mobilizações em outros países do Ocidente. O Brasil acabou dando o pulo do gato ao incentivar a retomada da indústria naval, com forte foco no setor offshore.

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Mas além dos empregos gerados, é importante ter uma indústria offshore local...

resposta

Ter essa posição no Brasil é mais um fator estratégico do que econômico. Por que se fez isso aqui? Por vários motivos, todos estratégicos. A começar pela importância da exploração e produção offshore de petróleo e gás, no âmbito de energia, assim como pelo fato de a Petrobras ser um dos principais motores da economia nacional. Foi uma forma de tornar o país e a própria Petrobras um pouco mais independente em relação a outros países e fornecedores. No mundo inteiro, hoje, ter essa indústria consolidada é estrategicamente importante. A conclusão de um projeto como o da P-55 é a confirmação disso.

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O Bureau Veritas acompanhou todas as etapas desse empreendimento?

resposta

Sim. Há seis anos o Bureau Veritas vem trabalhando junto à Petrobras na execução deste projeto. É importante lembrar que a classificadora não atua no controle da qualidade: é mais um auditor da conformidade de um projeto aos padrões, normas internacionais. Mas é óbvio que, por estabelecer regras, avaliar e verificar conformidade, assim como a integridade estrutural de uma unidade, não tem uma atividade isolada. Na realidade, acompanhamos e classificamos um projeto desde a sua concepção à construção nos estaleiros, assim como na verificação e vistoria, em fábricas em qualquer lugar do mundo, de todos os componentes que vão ser instalados naquela unidade. Todo e qualquer equipamento utilizado deve sair do fabricante devidamente certificado de que está de acordo com os requisitos da classe. E esse trabalho vai continuar depois de a unidade entrar em operação, por toda a vida útil da mesma. Ou seja, o BV vai realizar vistorias periódicas para aferir a conformidade e manter a classificação internacional concedida para aquela operação.

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Havia equipes de trabalhos do BV nos dois estaleiros?

resposta

Sim. Tanto na construção do casco, no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Suape, Pernambuco, como no Estaleiro Rio Grande (ERG), no Rio Grande do Sul, onde foram fabricados alguns módulos e realizadas as instalações do convés e módulos produzidos em outro local, assim como a integração dos sistemas da plataforma. Houve vários desafios que merecem ser pontuados. Um deles, o desafio gerencial de reunir e armar aquele enorme conjunto de subpartes para ‘montar’ uma plataforma de produção de petróleo e colocá-la em operação. Isso realmente tem de ser comemorado. Outro desafio foi a construção do casco praticamente em simultâneo com a do próprio estaleiro EAS, tendo sido os dois praticamente concluídos ao mesmo tempo, estaleiro e casco. E todos sabem a dificuldade que representou isso, em um contexto como aquele, quando não havia tradição em construção offshore.

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Ou seja: todo o processo foi desafiador. Por isso, a P-55 representa um marco na indústria offshore brasileira?

resposta

É importante entender que isso tudo não se deu de uma hora para outra. Não foi o resultado de apenas seis, sete anos de trabalho. Na realidade, a P-55 é o coroamento de uma série de ações e avanços que vêm sendo consolidados desde a década de 1990 e que representou uma importante mudança de paradigma no que diz respeito à construção de unidades offshore de produção de petróleo.

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Qual é a mudança de paradigma?

resposta

Antes, buscava-se uma plataforma de perfuração, que era adaptada para produzir petróleo. Havia limitações, dificuldades nesse processo. Foi quando surgiram os primeiros estudos no Centro de Pesquisa Leopoldo Miguez de Mello (Cenpes) para desenvolver projetos de unidades semissubmersíveis (SS), concebidas desde o início para a produção. Em 1989, o Bureau Veritas certificou o primeiro projeto de uma SS de produção, concebida desde o início para esse fim – o que não era corriqueiro aqui nem em outras partes do mundo. Para se ter uma ideia, foi a primeira vez – ou uma das primeiras, creio – que uma classificadora utilizou a análise de risco para poder aprovar um item fundamental de escopo de classe. Ou seja: foi um longo processo de aprendizagem, nesses 23 anos, que demandou o envolvimento de toda a cadeia produtiva naval offshore. Fico feliz de ver em operação a P-55, que teve como ancestral esse projeto certificado pelo BV. Por isso, podemos afirmar, com todas as letras, que a indústria brasileira está capacitada. Temos todas as provas. Nada foi inventado do dia para a noite.

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Foi nessa década que surgiu a P-18, em operação até hoje no campo de Marlim, assim como a P-19 e outros projetos emblemáticos...

resposta

A P-19, que foi classe BV, representou um marco, com toda a engenharia feita aqui. Mas há outros marcos. Para mim, o projeto mais emblemático foi o do Polo Nordeste, por ter sido o primeiro grande empreendimento offshore do país. E também por fazer parte da minha história profissional, uma vez que fui o responsável pela certificação estrutural das sete plataformas fixas em operação até hoje no Nordeste. Foi emblemático naquele momento por consolidar a parceira do Cenpes com a Coppe/UFRJ, dentro de uma iniciativa da Petrobras de fazer as plataformas no Brasil, internalizando esse conhecimento para capacitar os estaleiros. Não fosse isso, talvez o BV não tivesse avançado tanto no Brasil na área offshore. Embora hoje essas unidades pareçam tão simples, na época era um grande desafio, uma quebra de paradigma.
Sim. Foi a época também em que começou um novo processo de evolução na própria classificação, que, até então, se baseava em regras prescritivas. Diante de conceitos novos, que nunca foram tratados antes, é necessário avançar com as técnicas, empurrando a fronteira das próprias regras. Antes, havia mais tempo para testar empiricamente. Hoje, usamos a simulação, sem deixar de lado, claro, os testes empíricos. Podemos dizer que a simulação é a tradução, no nosso sistema atual, do avanço da fronteira técnica na classificação. Ela equivale, em muitos casos, à validação pela experiência de tempos passados. Nessa migração, a classificação passou a considerar outros fatores, como a análise de engenharia, a análise de risco como fundamentos para aprovação. Ou seja, novos parâmetros, não mais estabelecendo regras prescritivas e sim goal setting – como um plano de metas do que é necessário ser feito para que a unidade tenha condições de manter a sua integridade estrutural, a operar com total segurança na atividade para a qual foi classificada.

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Ou seja: a mudança de paradigma em projetos também se reflete nas regras da classificação e certificação

resposta

A classe tem aspectos diferentes da certificação estatutária. A classe cuida, em grande parte, da solidez e características navais e sistemas a bordo, enquanto os certificadores estatutários cuidam de tudo que diz respeito à salvaguarda da vida no mar, proteção ao meio ambiente, entre outras. A certificação estatutária atesta a conformidade da embarcação com as regras específicas constantes das convenções e códigos internacionais e/ou normas da autoridade marítima do país. Já a classificação vai desde a aprovação do projeto e aferição da conformidade da construção com o mesmo, para que este opere de acordo com os padrões internacionais ao longo de todo o ciclo de vida de uma unidade, com o máximo de segurança e confiabilidade. E justamente por definir muitos dos critérios de projeto, desenvolver pesquisar para avançar na técnica de classificação e também realizar análises independentes, a classificadora acaba por ter um grande domínio do estado da arte de todas as disciplinas relacionadas ao desenvolvimento de um projeto.

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Por isso, o Bureau Veritas acompanha alguns projetos desde a concepção?

resposta

Em geral, as classificadoras não colocam essa competência técnica em benefício da planta, do projeto. Mas há vezes em que a classificadora é chamada a fazer análises, sobretudo quando envolve simulações e análises de risco, em função dessas competências. O que lhe permite fazer uma oferta competitiva de serviços. Essas análises são cada vez mais utilizadas, justamente em função da migração das abordagens prescritivas para o goal setting, que fazem usos dessas análises de simulação e de risco, cada vez mais, desde o projeto.

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Com isso é possível antecipar uma série de ações relativas à operação daquela unidade...

resposta

Não determinamos critérios de manutenção, mas sim verificamos aquelas coisas que são sintomáticas, para que a unidade possa continuar operando com segurança durante todo o seu ciclo de vida. Há um problema gravíssimo, que impacta todas as empresas. Quando se tem tudo novo, zero quilômetro, é mais fácil manter a condição de eficiência, segurança, integridade de um ativo. Com o uso e o passar do tempo, isso é mais difícil. Razão pela qual as operadoras, assim como classificadoras, vêm buscando utilizar outras ferramentas, para a gestão de integridade do ativo (AIM / Asset Integrity Management). O AIM passa a considerar todo o progresso da técnica e dos meios de gestão da informação e de cálculo. Antigamente, usava-se uma ferramenta poderosa para os projetos, mas na hora de fazer a gestão tudo era meio empírico. Hoje, as mesmas ferramentas utilizadas na aprovação do projeto são aplicadas na verificação da unidade em operação. Quando se faz análise estrutural é possível se avaliar melhor uma unidade levando em consideração todos os aspectos que podem impactar a integridade da unidade durante sua vida útil.

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Ou seja, há uma busca contínua pelo aprimoramento na classificação para acompanhar a própria evolução tecnológica no setor naval e offshore e também atender às exigências da sociedade no que diz respeito à segurança, preservação do meio ambiente etc.

resposta

Exato. Todos esses aspectos, principalmente os de âmbito socioambiental, demandaram que as classificadoras repensassem as próprias regras, as regulamentações de classe. Temos que evoluir continuamente, até mesmo para continuarmos a atuar como uma terceira parte, que audita com independência e objetividade. E para isso, temos de ser ativos na pesquisa. Daí o Bureau Veritas ter tomado a iniciativa de propor a formação do Comitê Offshore para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (Copedi), em 2011, envolvendo os diversos agentes do setor, ainda mais da indústria.

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Não havia nada similar?

resposta

Não. Havia sim um espaço vazio a ser ocupado para promover maior interação e o diálogo entre os principais setores da indústria, com foco na inovação. No passado, havia uma forte dicotomia entre academia e indústria, enquan. Na última década houve uma aproximação maior entre esses dois setores, mas o mesmo não ocorria dentro da indústria. Hoje, há maior consciência da necessidade desse diálogo, uma vez que, mais além de recursos, tempo e dinheiro, há riscos envolvidos. Nada mais inteligente do que dividir isso para gerar as inovações necessárias para a indústria offshore continuar a crescer. Essa é a proposta do Copedi, fazer com que as empresas falem, identifiquem os desafios em comum e os projetos e mecanismos mais adequados para que as soluções possam ser otimizadas e compartilhadas.

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Quantas organizações integram o Copedi?

resposta

No início, eram 15 participantes, hoje o dobro de integrantes, além de diversas empresas, incluindo companhias de petróleo, que apoiam e participam ativamente dos nossos fóruns – e realizamos quatro em apenas dois anos (2012 e 2013) –, independente de estarem ou não associadas. E já temos um projeto industrial em conjunto (JIPs ou Joint Industry Projects) firmado por nada menos que 19 empresas, além de outros quatro em análise. Embora tenham um papel chave na disseminação do conhecimento científico e no uso deste em aplicações industriais, os JIPs não são ainda uma prática comum no Brasil. Não havia essa cultura nem os elementos básicos para se fazer isso: pesquisa, dinheiro, agentes. Hoje, houve mudança. O mérito do Copedi foi identificar que havia os elementos necessários para colocar em marcha estes mecanismos.

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Quais elementos?

resposta

O percentual obrigatório de investimentos em pesquisa e desenvolvimento das concessionárias de blocos exploratórios licitados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e os índices de conteúdo nacional nos projetos do setor de óleo e gás foram as principais molas propulsoras para a formação do comitê. Esse foi o pano de fundo do Copedi.

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Mas já havia uma prática da Petrobras, de projetos multiclientes?

resposta

Sim, mas orbitavam, em sua maioria, em torno das prioridades da Petrobras. Hoje temos outro cenário, com outros atores no mercado que são demandantes também de inovações para superarem novos desafios. E todos têm a ganhar, uma vez que há projetos que são do interesse de um agente, ainda que não sejam prioridade, que poderão ser desenvolvidos por outros, que os consideram estratégicos. Com isso, todos os que participam, dividindo os custos, vão ser beneficiados por esse projeto.

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Qual o maior desafio para mobilizar essas empresas?

resposta

O Bureau Veritas, como um ator conhecido nesse mercado e legítimo nessa proposição não teve dificuldade para mobilizar essas empresas. Todos estavam demandantes e apoiaram rapidamente essa iniciativa. A contratualizacão é que é mais difícil, pois demanda o consenso de todas as partes. O primeiro JIP nos deu um grande aprendizado. Ter um contrato aceito por 19 empresas de distintos horizontes, com o aval de todos os departamentos jurídicos em um prazo viável para se começar é uma tremenda façanha. Continuamos aprendendo a encontrar e pontuar o que é consenso e negociar, buscar o melhor formato, para aquilo que é conflitante.

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Qual o papel do BV no Copedi?

resposta

É o líder do Copedi e vai responder por parte das tarefas, além de gerenciar a execução e participação de cada um. Realizamos fóruns periódicos, em três áreas principais: estruturas flutuantes, dutos submarinos e equipamentos subsea. Entre os principais temas abordados estão a gestão da integridade de ativos, aspectos relativos às condições meteoceanográficas (que considera estados de mar, direcionalidade, ventos, correntes e outros fatores, como profundidades), logística (fator crítico na exploração do pré-sal), fadiga de dutos rígidos e flexíveis, comportamento hidrodinâmico e processos submarinos. São os temas mais recorrentes nas reuniões, mas não excluem outros assuntos. Estes seis temas já se constituem em um valor colossal. Diz-se que há dinheiro, mas não há bons projetos, e que as universidades não conseguem identificar a necessidade da indústria. Temos seis pontos a focar!

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Qual a expectativa?

resposta

Esse mecanismo de fazer proposta de programas de pesquisa, de compartilhar riscos e metas, como o do JIP é extremamente positivo. É o que estava faltando na cultura industrial brasileira. Isso não tem volta e é um grande ganho para toda a sociedade.

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