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Ponto de vista

Por dentro do setor naval

10/10/2017 | 09h07
Por dentro do setor naval
Divulgação Divulgação

Manuela Barão, 36 anos, é descendente de japoneses. Ela morava em São Paulo, mas estava no Japão, em busca de emprego, quando soube da promessa de uma obra muito grande, com muitas encomendas de navios e que podia ser o seu passaporte de volta ao Brasil. Era o Estaleiro Atlântico Sul. “Quando cheguei, vi que a realidade eram atrasos nas entregas, trocas de diretorias e a cada novo gestor, a equipe mudava. Numa dessas, fui demitida”, conta a dekassegui, como se chamam os trabalhadores descendentes de japoneses que vieram do Japão para trabalhar na indústria naval como mão de obra qualificada.

“Fiquei pouco mais de dois anos em Suape. Eu perdi tempo, porque estava crescendo no Japão, mas queria voltar para o meu País”, lamenta. Sem horizonte de empregos no Brasil, Manuela precisou voltar para o Japão, onde mora atualmente com dois filhos. Lá, ela trabalha para o setor de siderurgia. “Na época que trabalhei em Suape, tinha uns 150 dekasseguis, mas nossas expectativas foram frustradas”, narra. Atualmente, não há mais dekasseguis no EAS.

O representante do governo

“Mesmo com todas as dificuldades, os estaleiros estão operando, isso já demonstra a importância da diversificação da economia estadual”, defende o presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape, Marcos Baptista. Atualmente, a indústria de transformação, na qual os empreendimentos navais estão inseridos, já representa mais de 9% do Produto Interno Bruto de Pernambuco.

“Em termos de emprego, entre 2016 e 2017, apenas o Atlântico Sul contratou mil funcionários. Mas, o perfil dos profissionais mudou tanto para eles, quanto para o Vard. Isso permitiu um ganho produtivo, que hoje já compete com estaleiros europeus”, defende. Para o gestor, essa indústria continua sendo estratégica para Suape.

“Pernambuco investiu cerca de R$ 2 bilhões em infraestrutura para receber os dois estaleiros, mas a manutenção desse polo naval envolve vários atores, incluindo a Petrobras e o Governo Federal”, comenta. “A gente não pode conceber um investimento desse volume se extinguir por falta de encomendas.As empresas precisam ter novos contratos”, aponta.

O sindicalista

A instalação da indústria naval fez de Suape um celeiro de empregos, lembra o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco (Sindmetal-PE), Henrique Gomes. “Era o sonho da carteira assinada e dos salários altos. Possibilitou a qualificação de mão de obra, gente que era da agricultura, que nunca tinha tido emprego formal. Isso mexeu com a economia, trouxe investimentos. Muitas pessoas montaram negócios para prestar serviços aos estaleiros”, lembra.

Por outro lado, a crise ceifou as oportunidades e também impactou na renda da população. “São mais de 100 demissões todos os dias. O salário inicial de um soldador, que já foi um posto muito disputado, caiu quase que pela metade. Hoje está em pouco mais de R$ 1,5 mil”, diz. “Isso afetou também a economia da região, causando fechamento de lojas, que viviam da renda dos trabalhadores do polo”, conta. “Em crise, as empresas também querem reduzir os benefícios para quem ficou. Estamos lutando contra a perda dos direitos trabalhistas que adquirimos ao longo dos anos”, argumenta.

O especialista

Floriano Pires, professor do programa de Engenharia Oceânica da Coppe UFRJ é um dos maiores especialistas da área naval do País. Na avaliação dele, a crise atual dos estaleiros pernambucanos e dos brasileiros não surpreende. “É o resultado de vários erros do passado que sempre estiveram evidentes. Primeiro, houve excesso de entusiasmo na hora da tomada de decisão, que foram mais políticas e pouco racionais”, aponta.

O professor avalia a indústria naval ter sido eleita como ‘vetor de desenvolvimento’ foi outro equívoco. “Esse tipo de indústria não é boa para isso, ela demanda investimentos altos, mão de obra muito especializada e fornecedores internacionais. Outras operações têm resultado melhor para dinamizar a economia”, argumenta.

Por isso, para Pires, a decisão de criar um novo polo naval em Pernambuco (fora do Rio de Janeiro, por exemplo) deveria ter sido acompanhada de uma concentração de investimentos nos anos seguintes, a fim de fortalecer os empreendimentos. “Em vez disso, o governo saiu prometendo estaleiros para outros estados. Até chegou-se a cogitar a instalação do Vard no Ceará”, lembra.

Os desempregados

A indústria naval saiu de dois mil empregos para mais de 82 mil de 2003 a 2014, segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Naval - Sinaval. Boa parte dessa explosão de vagas se deu em Pernambuco, que já chegou a ter 17 mil pessoas trabalhando no setor e hoje tem menos de cinco mil. No Brasil, restaram pouco mais de 50 mil empregados.

A onda de desemprego se intensificou a partir de 2014, quando a crise da Petrobras começou a corroer a carteira de encomendas dos estaleiros. O Sindicato dos Metalúrgicos do Estado contabiliza 200 mil demissões no setor desde então, grande parte delas associada ao segmento naval.

Muitos desses profissionais permaneceram desempregados, co­mo Wemerson Souza pereira, 44 anos, contador e um dos ex-funcionários do Vard Promar. “Não consegui mais encontrar emprego”, conta, dizendo que precisou se desfazer de um apartamento e um carro para manter dois filhos e a esposa.

Messias dos Santos, 36 anos, ex-operário da área de montagem do EAS, busca emprego desde julho deste ano, quando foi demitido. “Fui demitido doente, com uma hérnia de disco”, detalha.

“O Vard também rescindiu o contrato do meu cunhado, que também está doente”, acrescenta, dizendo que ambos levaram os casos à Justiça. “A vida de desempregado é difícil, especialmente porque a minha esposa não trabalha, temos um filho de quatro anos e pagamos aluguel”, acrescenta.

Não apenas os estaleiros, mas a indústria metalmecânica também ficou à deriva. Cada emprego no setor naval gera quatro a cinco empregos nas industrias e pelo menos 20 empresas do segmento fecharam por perdas de demanda com a crise dos estaleiros e desmobilização da refinaria Abreu e Lima. “Toda a indústria sofreu pois as empresas precisaram investir em equipamentos para atender as demandas”, pontuou o presidente da Fiepe, Ricardo Essinger.

Fonte: Folha de Pernambuco, 10/10/2017
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