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Mês do Trabalhador: Que futuro do trabalho queremos? por Flávia Vianna

Assessoria
04/05/2026 15:38
Mês do Trabalhador: Que futuro do trabalho queremos? por Flávia Vianna Imagem: Divulgação Visualizações: 4643

Desde 1924, o Brasil celebra o mês de maio como o Mês do Trabalhador, considerando o período como marco da luta por melhores condições laborais. Nos últimos anos, porém, novas dinâmicas se impuseram: modelos híbridos, plataformas digitais, pejotização e a “glamourização” do empreendedorismo. Ao mesmo tempo, a Quarta Revolução Industrial, com IA, IoT e robotização, promete ganhos de produtividade. Mas quais são os impactos reais para as pessoas trabalhadoras? O que, de fato, há a comemorar?

O trabalho sempre ocupou papel central na sociedade, impulsionando inovação e garantindo dignidade. No entanto, ao discutir o futuro do trabalho, corremos o risco de negligenciar sua base: o Trabalho Decente. Formalizado pela OIT em 1999, ele promove oportunidades de trabalho de qualidade, fundamentais para superar a pobreza, reduzir desigualdades e impulsionar o desenvolvimento sustentável. Entre suas dimensões, destacam-se condições seguras e rendimentos adequados.

Desde a pandemia, o mundo do trabalho enfrenta uma crise de saúde mental. No Brasil, 2025 registrou mais de 540 mil afastamentos por transtornos mentais. Assédio, burnout, jornadas excessivas e medo do desemprego estão entre os principais fatores de risco. Mulheres são as mais afetadas, e o recorte racial evidencia desigualdades ainda mais profundas.

Promover saúde exige ação intencional das organizações, com estratégias que coloquem a pessoa trabalhadora no centro. O IPEA aponta retrocesso na meta 3.4 do ODS 3, Saúde e Bem-Estar. Nesse contexto, a atualização da NR1 tornou obrigatória a avaliação de riscos psicossociais no PGR, ampliando a responsabilidade das empresas. Diante de dados tão alarmantes, por que agir apenas sob pressão de fiscalização, multas ou danos reputacionais? A saúde, como direito humano, deveria ser critério central das decisões organizacionais.

Outra dimensão essencial do trabalho decente é a remuneração. O conceito de Salário Digno deve orientar políticas salariais, uma vez que o salário mínimo, embora importantíssimo, não tem assegurado uma vida digna. Trata-se de garantir renda suficiente para cobrir necessidades básicas, promover bem-estar e autonomia.

Dados do IBGE mostram que, embora milhões tenham saído da pobreza, cerca de 12% das pessoas trabalhadoras ainda vivem em domicílios pobres. A renda insuficiente afeta mais pessoas pretas, pardas, mulheres e crianças. O país também retrocedeu na meta de trabalho decente do ODS 8. Não é possível discutir o tema sem enfrentar desigualdades estruturais de gênero e raça.

Assim, qualquer debate sobre o futuro do trabalho será incompleto se ignorar essas condições. É preciso reconhecer os retrocessos e recolocar o Trabalho Decente no centro das agendas de governo, empresas e sociedade.

Para avançar, o Pacto Global da ONU – Rede Brasil lançou a Ambição 2030, com movimentos que incentivam compromissos empresariais. Entre eles, destacam-se Mente em Foco e Salário Digno, que apoiam a promoção de ambientes de trabalho seguros, saudáveis e com remuneração adequada.

Este é o momento de as empresas se engajarem e contribuírem para um futuro do trabalho mais justo e sustentável.

Sobre a autora: Flávia Vianna é gerente de Saúde e Trabalho do Pacto Global da ONU – Rede Brasil.

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