Turismo

Falta de infraestrutura frustra empresas de cruzeiros marítimos

Diário de Pernambuco, 24/10/2018
24/10/2018 09:06
Falta de infraestrutura frustra empresas de cruzeiros marítimos Imagem: Divulgação Visualizações: 851

Nos últimos 20 anos, o mercado de cruzeiros marítimos cresceu de vento em popa. Embaladas pelas promessas públicas e privadas de investimentos em ampliação da infraestrutura turística para o setor, grandes empresas globais, como Costa Cruzeiros, MSC, Pullmantur, Royal Caribbean, entre outras, trouxeram ao país alguns de seus melhores navios.

Na temporada 2010-2011, os mares brasileiros chegaram a receber o recorde de 20 navios de passageiros, com 800 mil turistas. Mas as expectativas se frustraram. Sem os prometidos investimentos e com a chegada da crise, o mercado quase naufragou. No ano passado, apenas sete navios navegavam pelo litoral brasileiro. “Perdemos 13 navios e caímos para 358 mil cruzeiristas”, diz Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil).

Mas parece que os ventos começaram a soprar a favor do Brasil novamente. Na última temporada de cruzeiros, de setembro de 2017 a abril de 2018, o setor faturou R$ 1,8 bilhão, segundo estudo da Clia Brasil em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). “O potencial dos cruzeiros no Brasil é imenso e os números mostram que estamos retomando um leve ritmo de crescimento”, afirma Ferraz. “Podemos crescer mais se tivermos melhorias na regulação do setor, infraestrutura, custos e desenvolvimento de novos destinos. Se estivéssemos com o mesmo número de crescimento da temporada 2010-2011, o impacto já poderia ter ultrapassado R$ 4 bilhões.”

Uma prova de que o setor está navegando em mares mais calmos neste ano é a aposta da italiana MSC. Na próxima temporada, a empresa trará para o país o recém-inaugurado MSC Seaview, o MSC Fantasia e o MSC Poesia. “A MSC Cruzeiros aposta fortemente no Brasil e em seu potencial”, afirma Adrian Ursilli, diretor-geral da empresa no país. “É um dos mercados estratégicos da empresa, onde mantém investimentos constantes e é líder com 62% de market share.”

Para debater saídas para o setor, a Clia promoveu em agosto, em Brasília, uma série de debates com importantes autoridades e nomes de diversos segmentos, abordando temas como o alto custo operacional, a carga tributária, a regulamentação e a questão de infraestrutura portuária, temas que provocam diferentes impactos nos cruzeiros que cruzam a costa brasileira.

Estela Farina, presidente do Conselho da Clia, resume o que foi debatido na ocasião. “Aquela temporada 2010-2011, com 20 navios no nosso litoral, não sai da cabeça”, diz a especialista. “Não faz sentido o Brasil não estar no centro do mercado mundial de cruzeiros. Poucos países possuem um potencial tão grande e tão mal realizado. É preciso dar as condições para que esse potencial se realize.”

O ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, concorda com a executiva. Segundo ele, o Brasil precisa traçar uma estratégia clara de atração de investimentos com a melhoria do ambiente de negócios e a redução da burocracia. “Não é possível que um investidor precise esperar 12 anos para abrir uma marina ou um resort no Brasil ou que a burocracia expulse os cruzeiros dos nossos litorais”, diz Lummertz.

Não é mesmo fácil fazer negócios no Brasil. O diretor da Royal Caribbean no país, Mário Franco, diz que, na temporada 2018-2019, os navios da companhia estarão na costa brasileira só de passagem. “As autoridades querem tributar, querem saber da legislação trabalhista, logo fica difícil de realizarmos navios de cabotagem, por exemplo. O Brasil não percebe que a competição é internacional e não doméstica”, completou.

Sobre as questões trabalhistas, um dos maiores entraves do setor, os especialistas dizem que existe a necessidade de uma melhor interpretação do poder Judiciário do Brasil no que diz respeito às convenções do trabalho marítimo nos cruzeiros. O país está na contramão ao não respeitar as regras, normas e convenções internacionais. “Temos 50 nacionalidades diferentes dentro de um navio regidas pela mesma convenção internacional”, diz Naim Ayub, diretor da Costa Cruzeiros. “Os brasileiros, no entanto, seguem outra norma, o que influencia na harmonização a bordo e uma maior rotatividade de funcionários.”

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