Entrevista Exclusiva

Não há sustentabilidade com miséria

Redação TN Petróleo/Beatriz Cardoso
26/09/2023 12:16
Não há sustentabilidade com miséria Imagem: Divulgação Visualizações: 3188

Nesta segunda entrevista da série SUSTENTABILIDADE: INDÚSTRIA DE O&G É PARTE DA SOLUÇÃO, a discussão vai mais além da indústria para focar na questão social, uma vez que a geração e distribuição de riquezas têm forte impacto sobre a sociedade como um todo. E é um dos assuntos que também será abordado no SPE Brazil Sustainability Symposium (https://sbs2.spebrasil.org/), que a SPE Brasil realiza entre os dias 3 e 5 de outubro, no Rio de Janeiro. 

“O Brasil tem novamente a oportunidade de fomentar investimentos na nossa matriz energética, que é a base para o crescimento sustentado de qualquer país. Estou mostrando um dos caminhos para a geração de trabalho e renda visando à eliminação do principal desafio de sustentabilidade do nosso país que é a eliminação da miséria”, salienta Renato Costa (foto), diretor de Operações da Foresea, que participa do painel Diversity as a bridge for the future, no dia 4, às 16 horas (veja programação aqui https://sbs2.spebrasil.org/programacao/).

O executivo, que tem especialização em Liderança Global pela Wharton School e atua como líder de diversidade na Foresea, também apoia diversas ações inclusivas e de desenvolvimento de talentos por meio da consultoria Da Costa Lima, contribuindo com a inserção de pessoas no mercado de trabalho.

Mídia suporte do SPE Brazil Sustainability Symposium, a TN Petróleo, que há duas décadas vem discutindo a questão da sustentabilidade no setor de energia, criou a série SUSTENTABILIDADE: INDÚSTRIA DE O&G É PARTE DA SOLUÇÃO para ampliar esse debate. 

Na sua visão e experiência, quais os pilares da responsabilidade social que ainda precisam ser incorporadas à cultura das organizações (e que não diz respeito somente a corporações, mas ao cidadão)? Diversidade? Inclusão?

Renato Costa - Quando pensamos em sustentabilidade social, claramente a prioridade é erradicar a fome e a miséria.  No mundo, são 735 milhões de pessoas passando fome e 2,3 bilhões em situação de insegurança alimentar. No Brasil temos mais de 21 milhões de pessoas que não têm o que comer todos os dias e 70,3 milhões em insegurança alimentar. Os dados são do relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI). Para atacar essa questão prioritária de uma forma estruturada é preciso gerar e distribuir recursos econômicos. Logo, se faz cada vez mais necessário o alinhamento dos interesses da sociedade com os interesses das empresas. 

Como a indústria de energia pode ter um papel mais efetivo nesse processo?

Nessa direção, com a alta dos preços das commodities, o Brasil tem novamente a oportunidade de fomentar investimentos na nossa matriz energética, que é a base para o crescimento sustentado de qualquer País. Estou mostrando um dos caminhos para a geração de trabalho e renda visando à eliminação do principal desafio de sustentabilidade do nosso país que é a eliminação da miséria.

Todas as outras questões ligadas à sustentabilidade somente poderão ser equacionadas quando a fome for eliminada do nosso cotidiano. Quando falamos em Diversidade e Inclusão, estamos falando do respeito às pessoas, que somente acontece quando estamos pelo menos num estágio acima do modo sobrevivência.  

E como as organizações vêm avançando nesse sentido?

Muitas empresas no Brasil estão tendo avanços significativos no tema D&I. Muitas iniciativas motivadas principalmente pelo Pacto Global da ONU, que também define regras para o acesso aos financiamentos internacionais. Assim, essas questões começam a ser tratadas de frente, gerando uma mudança cultural positiva capitaneada pelas empresas. Essas ações vêm impactando o comportamento das novas gerações, que começam a não aceitar ações preconceituosas e não inclusivas.  Está é uma semente para as verdadeiras mudanças. 

Apesar dessa evolução, ainda vemos nas corporações a questão de D&I como uma ‘Batalha nas Trincheiras’, onde um grupo bem-intencionado de profissionais que não tem cargo executivo tenta avançar nas questões voltadas à equidade e respeito, mas geralmente não consegue sensibilizar a alta gestão para tomar decisões que podem acelerar as mudanças necessárias.  Isso ocorre porque o tema em questão ainda não está na pauta prioritária dessas empresas e dos seus investidores. 

Acredito que, para termos um avanço robusto nas questões de D&I, é imperativo o envolvimento desses atores, entendendo que é uma questão de sobrevivência. A notícia positiva é que as ‘Guerras nas Trincheiras’ não estão ocorrendo em vão.  Essa batalha está aumentando a consciência dos mercados consumidores, que por consequência bonificam ou penalizam as empresas, considerando os seus comportamentos frente às questões de sustentabilidade.   

D&I já estão na pauta do dia, ainda que tenhamos de avançar. Mas equidade é mais complicada: como dar chances diferenciadas àqueles que tiveram menos oportunidades, para que possam alçar um voo maior?

A busca pela equidade é um grande desafio, pois é inerente ao ser humano a busca do próprio bem-estar por meio da criação de clãs. Assim, os grupos que detêm o poder não conseguem perceber que, ao se fecharem e não compartilharem os recursos com a sociedade, ficam expostos e estimulam conflitos que colocarão em risco a existência de todos. Esse fato foi vivenciado há pouco tempo durante o período da pandemia, que nos mostrou a necessidade de cooperação de todos para vencer a batalha contra a covid-19. Felizmente, passo a passo a sociedade vem internalizando essa verdade.  O desafio da equidade está completamente relacionado ao conceito de compartilhar as riquezas naturais de forma sustentável para perpetuar a vida. 

Isso também vem evoluindo no ambiente corporativo?

Na esfera empresarial, esse conceito começa a ser despertado, porém numa velocidade ainda baixa. Segundo a agência Brasil, a participação de pretos e pardos em cargos de diretoria e nos conselhos administrativos é de 6,6%.

O desalinhamento da representatividade social na alta liderança das organizações pode gerar uma falta de identificação dos funcionários com as corporações e, por consequência, um desalinhamento do propósito empresarial e individual. Assim, o desempenho máximo empresarial possível não é atingido nem de perto. Na grande maioria dos casos, as pessoas não precisam de chances diferenciadas, elas precisam enxergar propósito no seu trabalho. Assim, podem encontrar o caminho para voarem alto com as suas próprias asas. 

Conhecimento é um ativo importante. Como fazer com que as empresas superem preconceitos e entendam que é preciso ter o conhecimento do mais experiente à disposição do novo talento, rompendo a barreiro do etarismo?

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, realizada em 2022 e divulgada pelo IBGE, temos cerca de 9,6 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, sendo que mais da metade dessas pessoas possuem mais de 60 anos. Essa realidade diminui a chance dessas pessoas encontrarem fonte de geração de recursos para a própria sobrevivência. Soma-se a isso o fato de o Brasil ser um país no qual as pessoas não possuem o hábito de poupar recursos para a fase da aposentadoria. Esse cenário alimenta o etarismo. Logo, para resolvermos essa questão de maneira consistente, voltamos novamente à questão prioritária, que é a geração de riquezas para tirar as pessoas da pobreza. Também é necessário o incentivo de políticas públicas que melhorem a condição de vida de toda a população (saúde e educação) e um planejamento de crescimento alinhando aos interesses das empresas e das pessoas, representadas pelo governo.  

Empresarialmente falando, um ambiente favorável de negócio impulsiona o crescimento das empresas e, por consequência, gera oportunidades para o crescimento das pessoas. E é esse ambiente de crescimento que estimula naturalmente a troca de conhecimento e atitude entre os profissionais mais experientes e os mais jovens.  Os jovens muitas vezes trazendo o ímpeto para as decisões e os mais experientes trazendo a ponderação adquirida com os seus diversos erros e acertos. Num ambiente de escassez, onde as empresas não encontram meios para crescer, a competição entre as gerações ocorre devido à busca natural pela conquista de espaços que possibilitem o crescimento dos indivíduos. 

Tudo isso vai estar sendo debatido pelos principais players da indústria no SPE Brazil Sustainability Symposium (https://sbs2.spebrasil.org/),

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