Negócios

Nos bastidores, petroleiros negam indícios de privatização

Valor Econômico
27/10/2010 10:01
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A avaliação do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, de que a companhia estava sendo preparada para a privatização no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) não é exatamente uma unanimidade entre os funcionários da estatal.


Muitos discordam da interpretação de Gabrielli, que, semana passada, divulgou carta aberta a David Zylbersztajn, ex-diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) na gestão tucana, apontando o que seriam os indícios do plano de enfraquecimento da companhia.


Entre os pontos mencionados pelo presidente da estatal para mostrar interesses "privatistas" do governo FHC na Petrobras foi, na época, a criação do conceito de unidades de negócio; a redução da participação nos leilões de áreas exploratórias realizados pela ANP; e a venda de participação acionária em refinarias, como foi o caso da Refap, no Paraná, da qual a espanhola Repsol comprou 30%.


Se a venda estivesse nos planos, a estatal não teria iniciado compra de empresas nos EUA, na Colômbia e na Argentina


Com o compromisso de não terem seus nomes revelados, funcionários e aposentados ouvidos pelo Valor negaram que houvesse um plano para desmontar a empresa.


"Quando as unidades de negócios foram criadas o objetivo era permitir contabilizar os resultados de cada área, responsabilizando os gerentes, já que internamente era difícil avaliar o desempenho, pois tudo era encoberto pelo resultado da Petrobras controladora", lembra um executivo.


O modelo de unidade de negócios, implantado pela consultoria AT Kearney, provocou maior competição entre áreas e disputa por resultados (e bônus), o que, alegam, teve efeito positivo. "Muito do resultado que se tem hoje veio lá de trás", diz um deles.


Já a afirmativa de que a Petrobras estava caminhando para a "extinção" da atividade exploratória é rebatida com a lembrança de que todos os campos do pré-sal da bacia de Santos descobertos, a partir de 2007, foram adquiridos nos leilões realizados pela ANP, em 2000 e 2001.


Sobre a participação da Petrobras nos leilões da ANP até 2002 - quando a empresa adquiriu o equivalente a 57,8% das áreas concedidas (em quilômetros quadrados) -, um executivo aposentado considera uma "falácia" as afirmações de que a companhia poderia ficar à míngua, sem novas áreas para explorar.


Ele diz que o número de blocos não é um indicador da qualidade da carteira de exploração de nenhuma empresa. "A área dos blocos é mais importante, na medida em que oferece mais opções para a perfuração de poços. No terceiro leilão promovido pela ANP, em 2000, a Petrobras comprou áreas imensas da Bacia de Santos, com base em interpretações geológicas que indicavam altas probabilidades de se encontrar reservas substanciais de petróleo. Nossas interpretações se confirmaram com a descoberta dos campos gigantes do pré-sal na Bacia de Santos que a atual administração da Petrobras e o governo tentam encampar como suas realizações", afirma.


A decisão de Gabrielli de levantar a discussão enquanto ocupa a presidência da Petrobras foi vista como uma politização que deveria ter sido evitada. Durante a campanha eleitoral de 2002, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a defesa da indústria naval nacional fazendo campanha no Estaleiro Verolme, em Angra dos Reis, o presidente da Petrobras na época, Francisco Gros, se manifestou publicamente para dizer, também sob o argumento de defender a companhia, que via "uma confusão muito grande entre qual deve ser o papel da empresa e qual deve ser o do governo".


Em uma carta aos funcionários enviada em setembro daquele ano, Gros, que morreu em maio deste ano, reproduziu uma entrevista sua a um jornal em que dizia não acreditar que a Petrobras fosse privatizada no futuro.


Um executivo da estatal naquela época acha que se houvesse a intenção de privatizar a Petrobras o processo teria sido iniciado pela venda de empresas da estatal, de modo a diminuir o seu valor e facilitar a eventual venda. Mas não foi o que aconteceu. "A Petrobras se fortaleceu de tal maneira que tornaria praticamente inviável privatizá-la, tamanha a quantidade de dinheiro que se faria necessária", diz.


Ele ressaltou ainda que a gestão da companhia fechou o capital das subsidiárias como a BR Distribuidora e a Petroquisa, incorporou a Braspetro (então subsidiária responsável pelas operações no exterior), e criou a Gaspetro, encarregada dos negócios de gás e energia. A companhia também iniciou um programa de aquisição de empresas de petróleo em países como Colômbia, Argentina (onde comprou a Santa Fé e a Perez Companc) e nos Estados Unidos. "Se acrescentou muito valor à Petrobras, e isso está no caminho contrário à privatização", diz o executivo.
 

Gabrielli diz que a Petrobras estava proibida de participar dos leilões da ANP, mas essa afirmação é controversa. Uma comparação do tamanho das concessões adquiridas pela Petrobras nos dez leilões já realizados pela agência mostra que, na média do governo FHC a empresa ficou com 61,57% das áreas licitadas, contra uma média de 50,6% do governo Lula. Em 2001, a Petrobras arrematou 20 dos 34 blocos oferecidos, o que significou uma fatia de 71% de todas as áreas ofertadas na 3ª rodada de licitações.


Nos dois primeiros anos do governo Lula, a Petrobras comprou 95% e 91% de todas as áreas que foram oferecidas na 5ª e na 6ª Rodadas, respectivamente, mas o percentual caiu para 23% nas duas rodadas seguintes, fechando em 45% na 10ª rodada, realizada em 2008. As estatísticas não consideram a 8ª rodada, de 2006, que foi suspensa e que não teve resultados até hoje.
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