Qualificação Profissional

O desafio da formação do trabalho em tempo de pré-sal

A reforma setorial de 1998 mudou radicalmente os negócios.

Brasil Econômico
06/10/2014 10:03
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Há dez anos, poucos apostariam que o Brasil deixaria de ser importador de óleo.

A descoberta de gigantescos depósitos de hidrocarbonetos no pré-sal fez tudo mudar.

Antes, em 1998, a reforma setorial mudou radicalmente os negócios.

O sistema de concessão para explorar e produzir foi introduzido e mais de sessenta empresas ingressaram no país na busca por petróleo e gás.

A multiplicação dos atores, abertura de novas províncias petrolíferas e crescimento da produção doméstica são os formadores da nova estrutura do mercado local.

O impacto na geração de renda foi significativo. Há 15 anos, o setor representava pouco mais de 2% do PIB.

Hoje, responde por 10% ao menos. O maior portfólio de investimentos em E&P, entre todas as petroleiras do mundo, é o da Petrobras: mais de US$ 50 bilhões por ano.

O desafio de produzir petróleo ultraprofundo, em campos a mais de 200 quilômetros de distância e em alto-mar não exige somente mais investimentos.

Serão necessárias novas tecnologias e, principalmente, qualificação profissional altamente especializada.

Entre outros obstáculos, não existe tradição na formação de quadros para a indústria, num país que sempre foi rico em recursos minerais, mas que, há pouco, não tinha registro de descobertas de hidrocarbonetos significativas.

Há 15 anos, não existiam cursos de graduação em engenharia, geologia, ou química aplicada ao petróleo e gás natural na universidade brasileira. A Petrobras ainda mantém a sua própria academia.

Na década de 90, o interesse pela engenharia, e particularmente pelo petróleo, estava em baixa. Comunicação, jornalismo, finanças e, na engenharia, a biomédica e te-lecomunic ações atraíam cada vez mais alunos.

Há um vazio geracional na pirâmide de idade dos trabalhadores da indústria flagrante nos quadros de qualquer empresa do setor.

Contudo, a falta de interesse e vagas foi nitidamente revertida depois da virada do milênio.

Na Europa, fora o biomédico, o engenheiro melhor remunerado é aquele especializado em Óleo e Gás.

No Brasil, é para o setor que o Ministério do Trabalho mais concede visto de entrada.

As encomendas decorrentes das atividades não geram empregos apenas para geólogos e engenheiros de reservatório.

O renascimento da construção naval, que emprega mais de 60 mil trabalhadores, é exemplo notável, além da consolidação da Ilha do Fundão, geradora de pesquisa aplicada onde multinacionais vêm se instalando.

O ensino e a pesquisa tecnológica nas universidades brasileiras são tributários do crescimento do setor.

Em nenhum país o investimento em P&D alcança meio bilhão de dólares anuais, como no Brasil.

O efeito multiplicador ainda está por vir; os projetos estão em início de desenvolvimento. Impulsionarão a economia a partir da segunda metade da década.

Os campos de Lula, Búzios e Libra produzirão mais de um milhão de barris/dia. Será um feito sem paralelo.

No mundo, só três campos o fazem; dois na Península Árabe e um na costa do Golfo do México; regiões de tradição na produção de óleo e todos os três estão em terra firme.

O capital tem mobilidade para superar o desafio de financiar a tecnologia e os ativos, o que não acontece com o fator trabalho, que depende do Estado e do trabalhador.

O desafio maior será formar e qualificar recursos humanos para aproveitar a oportunidade, que estáno mar e, talvez, ainda escondida em terras brasileiras.

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