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O futuro veio antes da hora ou dormimos no ponto? por André Luiz Barros


09/04/2021 12:32
O futuro veio antes da hora ou dormimos no ponto? por André Luiz Barros Imagem: TN Petróleo Visualizações: 1616

A pandemia redefiniu de forma global e imprevisível quase tudo, nossa forma de pensar, de agir, de se comportar, nossos rituais, nossas relações familiares, afetivas e profissionais. Tenho estado curioso para ler o que a literatura sociológica nos dirá de todas essas transformações e o tanto que esses últimos meses impactarão nossas escolhas e tomada de decisão. Nas empresas, de um dia para o outro, o toque de recolher corporativo veio sem anestesia, com todas as dores de direito – foi a falta de um parque tecnológico adequado; a ausência de infraestrutura e ergonomia no trabalho em casa; a dificuldade da coexistência simultânea e forçada da vida pessoal e profissional com todas as crianças, maridos, esposas, pais e mães que lhes convinham entre uma videochamada e outra. Tudo novo! O home office ainda era uma pauta curiosa e de destaque nos jornais no início de 2020 e muitas eram as companhias que vendiam o benefício como o atrativo fora da curva da carta proposta na hora da contratação, um ano depois, o regime remoto virou default.

Tanta mudança e tão abruptamente exigiu de forma mandatória investimentos em massa em transformação digital. De acordo com dados da Citrix, empresa de software que fornece servidores, virtualização de desktops, aplicativos e redes como serviço e tecnologias de computação em nuvem, 68% das organizações brasileiras não permitiam o trabalho remoto em 2019. Ou seja, a verdade é que por mais que esse ou aquele conglomerado empresarial estivesse mais preparado, todos tiveram que trocar o pneu com o carro andando em especial quando falamos em digitalização.

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Três áreas precisaram se unir em um ponto único de convergência para criação de um ambiente de trabalho digital não apenas para os processos, mas também para as pessoas: TI, recursos humanos e comunicação. A experiência do colaborador nunca foi tão posta em cheque quanto antes. Fez bem feito quem surfou a onda da sinergia e conseguiu somar skills para criar, gerir e comunicar processos diferentes, adequar-se a novos regimes de expediente e acolher demandas potenciais atreladas a todas essas tecnologias e à saúde mental, já do ponto de vista mais humano. O desafio vai muito além da simples mudança de mindset e processual, mas também de gestão de riscos envolvidos em todo este trabalho, que vão de onde se alocar mais tempo e dinheiro, à impactos engajamento dos funcionários e respectivo turn over.

O futuro ultra digital que só víamos nos Simpsons e que tem se imposto em nossas vidas ultimamente me trouxe um questionamento, afinal, ele veio antes da hora e por isso não estávamos preparados, ou dormimos no ponto, quentinhos em nossa zona de conforto analógica?

Nos últimos dias baixei o aplicativo de leitura online de livros, Skeelo, e me deparei ao acaso com o ensaio ‘Quando acaba o século XX’, da antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Nele, ela reflete sobre os impactos da pandemia de covid-10 em nossa compreensão sobre as desigualdades estruturais da sociedade brasileira e o que ela chama de limites da utopia tecnológica que marcou o século passado. Lilia diz que “a grande marca do século XX foi a tecnologia e a ideia de que ela nos emanciparia e libertaria”, mas ela discorda desse pensamento, “graças a ela (tecnologia), acreditávamos estar nos livrando das amarras geográficas, corpóreas, temporais. Não estávamos! Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX”.

Trazendo essa reflexão para o campo corporativo, o fator humano, a tecnologia e a comunicação que se demandam e estabelecem é exatamente o que motiva e alicerça o ponto de convergência dessas três áreas – TI, recursos humanos e comunicação – e é esta conexão multidisciplinar, ampliada com lente de aumento pelo cenário Covid-19, esse novo ciclo e formato que se abrem nesse, agora formal, início do século XXI.

Considerando que essa transformação digital é uma transformação também cultural e que ela vai abranger toda a companhia, três pontos são cruciais para essas três áreas para que esse movimento tenha mais chances de ser bem-sucedido e menos arriscado: entendimento claro do negócio e da estratégia da empresa; confiança e proximidade da alta liderança; protagonismo e conexão interdisciplinar.

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Não adianta comunicar sem conteúdo, digitalizar o ambiente de trabalho sem focar nas pessoas ou mexer na cultura sem comunicar. Este trabalho pode ser o pontapé inicial para eliminar processos duplos, desburocratizar a rotina, conquistar engajamento, otimizar o tempo, gerar valor e principalmente impactar positivamente a jornada do funcionário por meio de uma experiência que, de preferência, tenha o propósito empresarial no centro. A aceleração tecnológica imposta pela pandemia precisa ser acompanhada e construída oportunamente para melhorar o trabalho e os processos, mas também contribuir para voltar-se mais para a saúde e o bem-estar do público interno, do momento da atração de talentos ao de transição de carreira.

A promoção de um ambiente digital com um formato de trabalho flexível pós-pandemia já integra a proposta de valor oferecida por uma empresa, ou seja, seu compromisso de médio-longo prazo com o empregado – e por incrível que pareça isso está longe de ser regra. Transformação digital passa pela tecnologia, mas não é só isso. TI, RH e comunicação têm um papel importante nesta empreitada.

Sobre a coluna:

Os textos publicados abordam temas gerais da comunicação organizacional interna e externa; relacionamento com imprensa; redes sociais e marketing digital; reputação e imagem e assuntos de discussão mais recente como cultura e marca; propósito e employer branding.

O novo espaço é editado por Lia Medeiros (foto), diretora de Comunicação, Sustentabilidade e Pessoas da TN Petróleo, e assinado pelo jornalista André Luiz Barros, que há 12 anos trabalha com comunicação corporativa e atualmente acumula o cargo de gerente de comunicação em uma empresa do setor de óleo e gás.

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