Diesel

Petrobras cancela alta do diesel com pressão de Bolsonaro; governo cita caminhoneiros

Reuters, 12/04/2019
12/04/2019 16:01
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A Petrobras desistiu de elevar o preço do diesel nas refinarias a partir desta sexta-feira após pressão do presidente Jair Bolsonaro, em meio a preocupações com uma eventual nova greve dos caminhoneiros, trazendo de volta incertezas do mercado relacionadas intervenções do governo em decisões da companhia, o que poderia prejudicar a recuperação financeira da empresa.

Na véspera, por volta do meio-dia, a Petrobras chegou a anunciar elevação de 5,7 por cento no valor do diesel para esta sexta-feira, mas à noite anulou o aumento e decidiu manter a cotação em 2,1432 reais por litro, praticada desde 22 de março.

Bolsonaro defendeu uma alta menor, disse uma fonte próxima do presidente, enquanto a Petrobras justificou a decisão no final da noite dizendo que revisitou sua posição de hedge e avaliou, com o fechamento do mercado, que havia “margem para espaçar mais alguns dias o reajuste”.

A decisão foi tomada após ligação de Bolsonaro ao atual presidente da empresa, Roberto Castello Branco, informou a fonte palaciana à Reuters.

As ações da estatal caíam mais de 7 por cento no início da tarde, com preocupações sobre a independência da estatal no que tange a sua política de reajustes de combustíveis, enquanto analistas do BTG Pactual citaram “déjà vu” ao recordar os prejuízos bilionários causados à estatal em anos anteriores, quando o governo impedia reajustes demandados pela diretoria para evitar inflação.

Dessa vez, o movimento do governo veio diante de uma recente insatisfação de caminhoneiros em razão dos valores do diesel e dos fretes.

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou julgar que Bolsonaro “optou pelo bom senso nesse presente momento e vai buscar aí uma outra linha de ação”, destacando que o movimento de interferência foi isolado e não será recorrente no governo atual.

“Tenho a absoluta certeza que ele não vai praticar a mesma política da ex-presidente Dilma Rousseff no tocante aí a intervenção em preços do combustível e da energia”, defendeu o vice-presidente.

Em meio às notícias, o Conselho de Administração foi chamado para uma reunião por telefone no início da tarde com a companhia, segundo duas fontes com conhecimento do assunto.

Ao comentar o assunto em nota na quinta-feira, a Petrobras ainda reafirmou a manutenção do alinhamento com o Preço Paridade Internacional.

A busca pela paridade sempre foi algo citado pelas gestões da companhia, mesmo na época do governo do PT, quando os preços passavam por longos períodos congelados.

Em meados do ano passado, após um período de liberdade para praticar preços, o então presidente Pedro Parente renunciou em meio a uma greve histórica de caminhoneiros devido aos altos preços do diesel e pressões governamentais.

A greve culminou com um programa de subsídios aos diesel do governo que durou todo o segundo semestre. Mas, neste ano, o diesel da Petrobras vinha sendo reajustado em intervalos de até sete dias, com alinhamento de preços com valores internacionais.

No mês passado, porém, a companhia decidiu rever a política, determinando que as reajustes seriam feitos em intervalos não inferiores a 15 dias.

Críticas

O movimento tomado pela Petrobras foi recebido com críticas por lideranças ligadas ao setor de combustíveis.

“É impressionante, o governo se diz tão forte, tão liberal, e fica refém dos caminhoneiros. Foi mais um retrocesso e muito ruim para o país, porque deixa de atrair investimento, muito ruim para a Petrobras, porque perde dinheiro, e muito ruim para o governo, porque perde credibilidade”, afirmou o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, referindo-se à notícia de interferência do governo.

Na mesma linha, o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araujo, disse que “a intervenção do governo na Petrobras está declarada”.

“Existem soluções para atender aos pleitos dos caminhoneiros sem prejudicar os acionistas da Petrobras e preservando os projetos do Roberto Castello Branco para o desinvestimento nas refinarias... O governo está dando uma péssima sinalização para os investidores nacionais e internacionais. E sem investimentos em infraestrutura, estaremos condenados à estagnação”, acrescentou.

O presidente da Plural, associação que representa as distribuidoras de combustíveis, Leonardo Gadotti, ressaltou que o mercado estava funcionando muito bem neste ano, com as altas do diesel nas refinarias acumulando 18,50 por cento, contra 2,8 por cento nos postos, na média Brasil.

Os repasses dos preços dos combustíveis às bombas dependem de uma série de fatores, como margens dos distribuidores e revendedores, impostos e adição obrigatória de biodiesel.

“Isso tem que ser muito bem explicado para a sociedade”, afirmou Gadotti.

“Todo tipo de intervenção, às vezes com as melhores das intenções, prejudica. Tira o funcionamento normal de um mercado como esse que funciona bem no mundo todo”, afirmou.

Uma outra fonte, ligada à estatal, disse que o movimento da Petrobras a colocaria em uma zona de risco que remete aos tempos de interferência de governos anteriores, quando os preços de diesel e gasolina eram “congelados” para ajudar a segurar a inflação.

“O Bolsonaro está fazendo exatamente o populismo perigoso que a (ex-presidente) Dilma (Rousseff) fez, e isso é uma afronta às regras de governança e compliance da empresa”, afirmou a segunda fonte. “Se quer questionar a política, que se manifeste através do conselho de administração, mas quem decide preço é a diretoria executiva, e não o presidente da República.”

Uma fonte da equipe econômica avaliou o cenário como “preocupante” porque “infelizmente lembra muito” tempos de controle dos preços do governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

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