Tecnologia

Petrobras terá robôs para monitorar a selva

Valor Econômico
27/06/2005 00:00
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É possível que, na próxima década, ribeirinhos amazonenses e suas canoas tenham de dividir os rios com um vizinho bastante exótico. Até lá, talvez ele já tenha se tornado, então, uma figura amplamente conhecida, com seu corpanzil de acrílico, seus braços mecânicos e o zumbido característico de seu motor elétrico.
Trata-se do Robô Ambiental Híbrido, um defensor futurista da Amazônia, que por enquanto só existe nos computadores e mentes de um grupo de cientistas e técnicos. Se virar realidade, ele se tornará o símbolo mais vistoso das atividades de exploração de gás e petróleo na região Norte, graças a um ambicioso projeto denominado Cognitus.
O plano envolve a construção de dezenas de robôs, provavelmente de três modelos distintos. Inclui também a realização de estudos e experiências inovadoras em computação, sensoriamento remoto, bioquímica, nano e biotecnologia.
Se funcionar, dará à Petrobras ferramentas melhores que as atuais para monitorar as condições da região e impedir desastres ambientais, caso ocorra algum acidente na produção ou transporte de combustível. "Temos de fazer planos de contingência melhores para a Amazônia", afirma o diretor do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), Fernando Pellon. "Aquela região é tão complexa que exige de nós novas estratégias, novos jeitos de fazer logística e monitoramento."
A Petrobras se vê às voltas com tal complexidade desde 1988, quando começou a atuar na bacia do Rio Solimões, mais especificamente na província mineral de Urucu, 650 quilômetros a sudoeste de Manaus. Desde então, aquela área tornou-se uma das mais importantes do país na produção de petróleo em terra firme e mostrou sinais de abrigar uma das maiores reservas de gás natural do mundo. Duas grandes obras estão em planejamento por lá, a fim de levar as matérias-primas do meio da floresta para cidades maiores: os dutos Coari-Manaus e Urucu-Porto Velho.
Assim como as riquezas subterrâneas, porém, na Amazônia os problemas também vêm em proporções colossais. Como a floresta passa metade do ano inundada, a Petrobras resolveu usar, para mapear o ambiente e planejar ações de emergência, uma versão da metodologia aplicada a regiões costeiras pelo NOAA (o departamento americano de monitoramento oceânico e atmosférico). Só que, em praias, normalmente, a variação do nível da água pode ser medida em centímetros. No Rio Solimões, a variação chega a 14 metros. O desafio não acaba aí.
O Solimões passa exatamente pela área de extração de óleo e o Rio Negro passa ao lado da Refinaria de Manaus. Os dois são, portanto, vulneráveis a acidentes. As águas de ambos - e o óleo, em caso de vazamento - encontram-se no Rio Amazonas, o mais volumoso do mundo, e correm para o oceano, desembocando no maior estuário do mundo, em meio a um manguezal que, como parece ser o caso de tudo na Amazônia, é o mais extenso do mundo.
Como se isso não bastasse, o litoral da região Norte tem o que os cientistas chamam de macromarés. Quando o mar sobe, a água salgada avança até 60 quilômetros terra adentro. Para tentar descrever esse mundo de florestas densas e massas líquidas de comportamento caótico, os cientistas usam atualmente 20 cenários hidrológicos (quatro na Amazônia Central e 16 na região costeira). É pouco. "Ainda não é possível priorizar os ecossistemas a serem protegidos durante as cheias amazônicas em casos de acidentes com derrame de óleo", informa um relatório do projeto Cognitus.

Equipamento desenvolvido pela estatal poderá ser operado, via satélite, da sede da companhia 

Confrontado com esse cenário de pouca informação e acesso difícil, o laboratório de robótica do Cenpes começou a projetar equipamentos capazes de percorrer a floresta e os rios, de forma independente da presença humana. Os pesquisadores os apelidaram de AmazonBots. Sua missão seria detectar quaisquer anomalias ambientais, especialmente aquelas provocadas por vazamentos de gás ou óleo, mesmo que diminutos. Ao mesmo tempo, poderiam realizar missões científicas de vários tipos.
Os equipamentos têm de preencher diversos requisitos: precisam ser silenciosos, não-poluentes, devem comunicar-se com bases na Amazônia e no Rio de Janeiro via satélite, mostrar resistência, facilidade de manutenção e capacidade de manobra para se locomover na água e na lama, num emaranhado de troncos, raízes e folhas.
Solucionar esse quebra-cabeça é tarefa de uma rede de cientistas administrada pelo engenheiro Ney Robinson, chefe do laboratório de robótica da Petrobras. Ele classifica o terreno daquela área como "pastoso". No caso do modelo principal de robô (que a Petrobras gostaria de batizar como "Chico Mendes", em homenagem ao seringueiro e ambientalista morto em 1988) o pesquisador acredita ter chegado a um sistema que combine flutuabilidade e tração.
A Petrobras trata o assunto como segredo industrial, mas os primeiros protótipos desse AmazonBot indicam um equipamento com cerca de 2,5 metros de comprimento, 300 quilos de peso e fundo transparente. Ele é chamado híbrido porque poderá carregar um piloto, ou ser monitorado à distância.
Paralelamente, os pesquisadores trabalham em outros modelos. O mais avançado é o Kwata, nome de uma espécie de macaco. Será um robô fixo a determinadas árvores, encarregado de baixar uma sonda até o nível da água, periodicamente, para examiná-la. Outros são o Robô Ambiental II (versão menor, mais ágil e mais leve, não-tripulada, do primeiro robô) e o Porake, um peixe-elétrico artificial. No conjunto, formariam um pequeno exército de máquinas, capazes de "ver", "ouvir" e "cheirar" a floresta e as águas.
A informação gerada pelos robôs, porém, só terá valor se puder ser comparada com as condições normais da região. "Temos de definir o que seria o `estado zero` do ambiente", diz o geólogo Amílcar Mendes, do Museu Emílio Goeldi, uma instituição federal de pesquisa sediada em Belém (PA). Ele é um dos cientistas envolvidos no projeto Piatam (Potenciais Impactos e Riscos Ambientais da Indústria do Petróleo e Gás na Amazônia). Trata-se de um trabalho iniciado pela Petrobras em 2001, em parceria com diversas universidades e centros de pesquisa, para conhecer melhor a região, incluindo aspectos sociais. O Cognitus é seu braço tecnológico.
No momento, diante de ambições tão grandiosas, os orçamentos são menos que modestos: até 2006 o Cognitus tem R$ 3,6 milhões e o Piatam, R$ 7 milhões. Mesmo assim, a Petrobras quer chegar a dezembro de 2005 com um bom protótipo do Robô Ambiental Híbrido e a dezembro de 2006 com algumas unidades do Kwata prontas. Se o dinheiro permitir, o sistema começará a funcionar em 2008.

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