Petroquímica

Setor inicia o ano indeciso sobre os impactos da crise

Valor Econômico
05/01/2009 06:28
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Os efeitos da crise financeira no setor produtivo alcançou a petroquímica brasileira em um final de ciclo de investimentos já irreversíveis. Esse cenário causa apreensão quanto a uma possível dificuldade para a colocação no mercado das novas capacidades produtivas, mas a falta de liquidez no mercado, a princípio, parece que pouco afetará o setor, agora entrando em uma fase de amortizações. Os investimentos programados em novas fábricas de plástico verde ou nos pólos do Rio de Janeiro e de Pernambuco, ou são, relativamente, de pouca monta, ou de longa maturação.

 

“Não tínhamos nada programado (para a abertura de um novo ciclo de expansão). Agora, vamos ser ainda mais rigorosos nas decisões de investimentos”, disse o presidente da Quattor, Vitor Mallmann. Criada em junho, com a fusão dos ativos da Suzano, comprados pela Petrobras, e da Unipar, a Quattor nasceu como a segunda maior petroquímica do país. Agora, vai incorporar ao seu parque fabril mais 200 mil toneladas de capacidade em eteno (matéria-prima básica), 230 mil de polietileno e 190 mil de polipropileno. No total, a empresa investiu mais de R$ 2 bilhões.

 

Em novembro, a Quattor deu duas semanas de férias coletivas nas unidades de polipropileno da Bahia e do Rio devido à queda de 26% nas vendas de resinas termoplásticas. Em 2009, a retração do mercado será agravada pela chegada ao mercado de mais produtos fabricados em unidades em fase final de implantação na Ásia e no Oriente Médio. O cenário contribuirá ainda mais para derrubar as vendas e os preços.

 

Ainda assim, Mallmann estima que as vendas de polietileno e polipropileno cresceram cerca de 3% em 2008, ante previsão inicial de 6%. Para 2009, o panorama pode não ser de todo ruim, avalia. Isso porque há uma expectativa de que, com a recuperação do dólar ante o real, a indústria doméstica recupere a fatia de mercado que perdeu para as importações. Os produtos externos responderam por 20% da demanda, quando o normal é da ordem de 10%, diz.

 

O outro grande investimento que entrou em produção este ano foi a fábrica de polipropileno de 350 mil toneladas/ano da Braskem, líder do setor no país. Com investimento de US$ 300 milhões, a unidade elevou a capacidade de produção dessa resina na empresa a 1,04 milhão de toneladas. A Braskem também freou a produção em novembro e, como a Quattor, aguarda o movimento do mercado no primeiro trimestre para fazer uma avaliação mais precisa da tendência das vendas.

 

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o Brasil fechou 2008 com capacidade de produção de resinas de 7,5 milhões de toneladas anuais. Entre as matérias-primas básicas para fabricar resinas, a capacidade nominal de eteno é de 3,72 milhões e a de propeno a 1,33 milhão de toneladas.

 

O BNDES desembolsou de janeiro a novembro R$ 1,8 bilhão em financiamentos contratados e aprovou 15 operações no valor de R$ 2,11 bilhões. Os principais projetos em tramitação no banco são neste momento Braskem, Dow Química e Solvay Indupa, todos destinados à construção de unidades para fabricação de eteno e resinas a partir do álcool de cana, o chamado plástico verde.

 

É o retorno da alcoolquímica, tecnologia que o Brasil dominou no final dos anos 1970 e que foi depois abandonada com a queda do preço do petróleo. Dos novos projetos, o maior é o da Braskem, para produzir 200 mil toneladas de eteno e de polietileno no pólo de Triunfo (RS) a partir de 2011, com investimento de R$ 500 milhões. Tanto Braskem como as multinacionais Dow e Solvay confirmaram a manutenção dos empreendimentos, apesar da crise.

 

Gabriel Gomes, gerente do Departamento de Indústrias Químicas do BNDES, disse que o cenário do momento é de final de um ciclo, sem condições para interromper nenhum dos projeto em andamento. Embora avalie que o momento seja de reavaliar a situação, segurar custos, Gomes também vê que não há razão para cortes nos projetos em gestação, nem os verdes, ainda experimentais, e nem os petroquímicos propriamente ditos - pólo de Suape, em Pernambuco, e Complexo Petroquímico do Rio (Comperj).

 

Os dois projetos têm na linha de frente a Petrobras, principal sócia minoritária das duas grandes petroquímicas do país - tem 30% no capital da Braskem e 40% no da Quattor. No caso de Pernambuco, o especialista do banco ressalta que o projeto tem o objetivo de produzir PTA, matéria-prima do poliéster, da qual o Brasil é fortemente deficitário, e os próprios fios de poliéster, essenciais para a indústria têxtil.

 

Já o Comperj, com investimento orçado em US$ 8,4 bilhões, vai produzir, dentre outras coisas, o paraxileno, insumo básico do PTA que o Brasil não fabrica, além de matérias-primas para as resinas tradicionais, das quais, segundo avaliação geral do mercado, o Brasil ainda tem um baixo consumo per capita. Como o Comperj só deverá começar a produzir no final de 2012, ou começo de 2013, a avaliação é que seus produtos chegarão ao mercado em outra conjuntura.

 

O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, é defensor firme da manutenção do Comperj, e dentro do seu cronograma original. Para ele, desde que respeitada a capacidade de pagamento, é agora, no momento de baixa, que os investimentos devem começar a ser feitos.

 

Além disso, Costa inclui o Comperj - cuja central de matérias-primas será uma refinaria com capacidade de  processar 150 mil barris de óleo pesado ao dia, que produzirá em grande parte insumos petroquímicos - entre os investimentos necessários para que o Brasil não se torne um grande exportador de petróleo cru. A capacidade de refino do país está hoje na casa de 1,8 milhão de barris de óleo por dia, e a produção de petróleo, diz ele, ficará próxima de 4 milhões de barris em 2015. Além do Comperj, Costa quer construir mais três refinarias de grande porte no país.

 

A Petrobras, que foi o principal agente do recém-concluído processo de reestruturação da petroquímica brasileira, quer agora trabalhar para que as duas grandes empresas do setor tenham porte para competir igualmente no mercado global. A intenção já foi manifestada pelo presidente da estatal, José Sergio Gabrielli. Hoje, como destaca Costa, “a Quattor é menor do que a Braskem”.

 

O sonho da Petrobras é convencer o grupo Unipar, seu sócio no controle da Quattor, a transformar a empresa no principal acionista privado do Comperj. O arranjo começaria a resolver a estrutura societária da segunda geração do pólo do Rio de Janeiro, ainda em aberto, e, de quebra, daria à caçula Quattor o impulso necessário à equalização pregada por Gabrielli.

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