Aço

Siderurgia quer medidas para voltar a ser competitiva

Retomar a competitividade da indústria siderúrgica no país será a principal bandeira do novo presidente do conselho diretor do Instituto Aço Brasil, Albano Chagas Vieira, que toma posse na quarta-feira (27), após o fim da gestão de André Gerdau

Valor Econômico
25/06/2012 08:37
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Retomar a competitividade da indústria siderúrgica no país será a principal bandeira do novo presidente do conselho diretor do Instituto Aço Brasil, Albano Chagas Vieira, que toma posse na quarta-feira (27), após o fim da gestão de André Gerdau Johannpeter. O executivo, com larga experiência internacional no setor, atualmente é diretor-superintendente da Votorantim Siderurgia.

"O jogo mudou nos últimos cinco anos", afirma Vieira. O processo de perda de competitividade vem de antes da crise financeira global de 2008, com o aumento do custo Brasil, tendo como um dos principais fatores a supervalorização do câmbio. "Perdemos nossa força de competição no mercado externo".

Vieira - que em sua extensa carreira passou por Gerdau, Mendes Jr., Acesita, CSN, Smorgan Steel (Austrália) e Arcelor (Europa) - afirma que o setor vai atuar em três frentes. A primeira delas diz respeito às próprias empresas, voltadas na maior integração das operações. O foco é investir na matéria-prima, como minério de ferro, e insumos para baixar custos de produção.

O segundo alvo envolve o governo, ao qual reforçará a urgência de redução da carga tributária e fiscal e de desoneração de energia, entre outras medidas. "O custo da energia, em dólar, subiu de US$ 27 para US$ 120 o MWhora em dez anos", aponta o executivo. No quesito tributação, diz: "Fizemos um estudo mundial que mostrou que o Brasil é o terceiro país mais competitivo para fazer aço até a tributação. Ao se adicionar os impostos, cai para último da lista".

O terceiro ponto é o câmbio, que se agravou com a valorização do real. O país perdeu cada vez mais poder de exportação de aço, tanto de semi-acabado (placas e tarugos) como de laminados. A situação se agravou com o excesso de oferta no mercado mundial. Importadores do Brasil na Ásia, incluindo a China, tornaram-se exportadores muito agressivos no Ocidente, casos de Coreia do Sul, Tailândia e Taiwan.

Sem falar de países do Leste Europeu, como Rússia e Ucrânia. Em aços longos, e já ameaçando mercado de aços planos, a Turquia ganha espaço no Brasil. A siderurgia turca é beneficiada pela desvalorização da moeda e por usinas instaladas em zona franca, com incentivos na importação de sucata e na exportação de aço acabado.

Com capacidade para fabricar ao ano 48 milhões de toneladas aço, o Brasil fez 35 milhões de toneladas em 2011 e deve ficar por aí neste ano. O mercado interno terá um consumo na faixa de 26 milhões de toneladas, sendo 3,5 milhões de produto importado.

As exportações do país, de cerca de 9 milhões de toneladas, têm forte participação - de 40% a 45% - dos embarques da CSA, usina da Thyssenkrupp no Rio voltada para suprir unidades do grupo nos EUA e Alemanha. Sem isso, o país já estaria longe do patamar de 10 milhões a 12 milhões de anos anteriores.

O custo de produção de placas no Brasil não permite exportar com lucro. Em alguns casos, é feito até com margem negativa no resultado operacional (Ebitda). "Temos de voltar a ser competitivos para brigar no mercado internacional", destaca Vieira. "O governo, diz ele, está ciente do peso da tributação sobre a indústria e da importância de desonerar os custos da energia para uma categoria de grandes consumidores".

Para o novo presidente da entidade, "o Brasil se transformou em exportador de bens primários e agrícolas". Ele aponta o estrago da desindustrialização na cadeia produtiva do setor. "É um fato: o PIB industrial era 25% do PIB do país há 15 anos; hoje está abaixo de 15%".

Além do aumento das importações diretas, há a grande entrada de aço indireto, que supera 5 milhões de toneladas ao ano, contido em autopeças, automóveis, bens de linha branca e máquinas e equipamentos. "Cerca de 25% dos automóveis vendidos no país, entre eles carros chineses e coreanos, são importados".

Com perda de mercado e com a elevação do custo de instalação de uma usina, fazer novas siderúrgicas no país para competir lá fora ficou inviável. "Estudo de um grande banco mostra que montar uma usina de aço plano [até a fase da placa] custa US$ 500 a tonelada na China, US$ 800 na Índia e US$ 1,8 mil no Brasil". Aqui, ressalta, um dos problemas é que se paga imposto durante o investimento. Lá fora, apenas depois que tem lucro.

Só de minério de ferro e carvão, uma usina integrada tem custo acima de US$ 400 para fazer uma tonelada de aço, que tem preço pouco superior a US$ 500 no mercado internacional. Nessa conta não estão vários custos, como o de mão de obra, e a tributação.

Nesse cenário, admite o executivo, um caminho será as empresas ficarem competitivas para garantir o mercado doméstico. "Temos capacidade ociosa, com folga para atender demanda local". Depois, disputar mercado lá fora.

A demanda interna ainda cresce de 4% a 5% ao ano. Mas o consumo per capita brasileiro está estagnado entre 130 e 145 quilos por ano. Era 100 kg em 1980. "Na China, alavancado pela expansão industrial e de infraestrutura, passou de 34 para 500 kg no mesmo período". Na visão de Vieira, investimento em infraestrutura é que faz crescer o consumo. "Não podemos depender só de bens como carros e geladeiras", diz.
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