Artigo

Hidrogênio verde: o combustível limpo que pode transformar a mobilidade, Raphael Diniz

Redação TN Petróleo/Assessoria Schmersal Brasil
25/09/2025 08:22
Hidrogênio verde: o combustível limpo que pode transformar a mobilidade, Raphael Diniz Imagem: Divulgação Schmersal Brasil Visualizações: 2297

O hidrogênio verde, classificado entre os combustíveis de baixo carbono, pode ser obtido, no contexto brasileiro, a partir da reforma do etanol. Esse processo consiste na conversão do etanol, proveniente de fontes renováveis como a cana-de-açúcar, em hidrogênio, utilizando-se processos térmicos ou eletroquímicos. A vantagem desse método está na possibilidade de utilizar uma infraestrutura já existente, com ampla disponibilidade de etanol e cadeia logística consolidada, além de resultar em emissões significativamente reduzidas, quando comparadas às produções convencionais baseadas em combustíveis fósseis.

No cenário da transição energética, o setor de transportes se destaca como um dos mais desafiadores — e mais promissores. Veículos movidos a combustíveis fósseis, como carros, caminhões e ônibus, são grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. Substituí-los por soluções limpas, como o hidrogênio verde, é um passo fundamental rumo a uma mobilidade mais sustentável e resiliente.

Vantagens que colocam o hidrogênio na linha de frente
Entre os principais atrativos do hidrogênio verde obtido do etanol como fonte energética para o transporte está o fato de que veículos com célula a combustível emitem apenas vapor d'água — eliminando completamente poluentes como CO₂, óxidos de nitrogênio e material particulado.

Outro diferencial é a possibilidade de produção descentralizada: o hidrogênio pode ser gerado localmente, reduzindo os desafios logísticos de transporte e armazenamento que caracterizam outras rotas. Além disso, o tempo de abastecimento se assemelha ao dos veículos convencionais, levando apenas alguns minutos. Isso representa uma vantagem operacional em relação aos modelos elétricos a bateria, que exigem recargas prolongadas e têm vida útil mais limitada.

No Brasil, onde o mercado de carros usados ainda é bastante ativo, o uso do hidrogênio como fonte energética, especialmente via reforma do etanol, pode se tornar uma alternativa atrativa a longo prazo, aproveitando a infraestrutura de distribuição já estabelecida.

É importante lembrar que os combustíveis fósseis continuam sendo os mais utilizados em motores, apesar de sua eficiência energética relativamente baixa, variando entre 20% e 35%. Isso significa que apenas uma parte da energia química disponível é convertida em movimento. Já os veículos elétricos apresentam uma taxa de conversão superior, entre 40% e 60%, o que representa um aproveitamento significativamente maior. Além disso, causam menor impacto ambiental por não dependerem de derivados do petróleo.

A autonomia também merece destaque. Um caminhão movido a hidrogênio, desenvolvido pela empresa austríaca AVL, percorreu 3.000 quilômetros sem necessidade de reabastecimento, demonstrando o potencial da tecnologia para o transporte de longa distância. No Brasil, a EMTU opera um ônibus movido a hidrogênio na Cidade Universitária de São Paulo, em parceria com a USP, reforçando a viabilidade do uso urbano dessa alternativa energética. Países como Japão, Alemanha e Estados Unidos também vêm investindo em frotas públicas e privadas, consolidando o hidrogênio como uma solução global para a mobilidade limpa.

Desafios que ainda precisam ser superados
Apesar dos avanços, o hidrogênio verde obtido a partir do etanol ainda encontra obstáculos significativos. Embora a infraestrutura para distribuição do etanol já esteja consolidada no Brasil, o desenvolvimento de sistemas eficientes e economicamente viáveis para a reforma do etanol ainda demanda avanços tecnológicos e investimentos em pesquisa.

O custo de implantação de sistemas de reforma em escala comercial, bem como a necessidade de garantir a pureza adequada do hidrogênio produzido, representam entraves importantes. A eficiência energética do processo de reforma do etanol, embora superior a algumas rotas tradicionais, ainda precisa ser otimizada para garantir competitividade frente a outras alternativas energéticas.

Outro desafio está relacionado ao armazenamento e transporte do hidrogênio, que exigem cuidados técnicos específicos, caso a geração não seja feita de maneira totalmente descentralizada. O hidrogênio precisa ser comprimido a altas pressões ou liquefeito a temperaturas extremamente baixas, o que demanda tanques especiais e eleva os custos logísticos, além de aumentar o peso dos veículos.

Por isso, uma aplicação inicial mais viável seria em modais como trens, caminhões e ônibus, onde o espaço e o peso adicionais podem ser mais bem acomodados.

Ainda assim, iniciativas como a da EMTU, que utiliza a reforma do etanol para produzir o hidrogênio consumido localmente por um ônibus urbano, mostram que é possível avançar com projetos-piloto e testar a tecnologia em condições reais de operação. Esse projeto pioneiro demonstra como a rota do etanol pode ser viável para o transporte público, superando desafios relacionados à infraestrutura e ao abastecimento.

Um futuro promissor em construção
Diante da urgência climática e da necessidade de reduzir as emissões globais, o hidrogênio verde desponta como elemento-chave na construção de um novo modelo de mobilidade. Embora sua adoção em larga escala ainda dependa de investimentos robustos em infraestrutura, inovação tecnológica e políticas públicas eficazes, os projetos em andamento pelo mundo indicam que essa alternativa é viável e promissora.

Mais do que uma inovação energética, o hidrogênio verde representa uma oportunidade de repensar o transporte como parte de um sistema mais limpo, eficiente e sustentável. À medida que governos, empresas e centros de pesquisa se mobilizam para superar os desafios, o caminho para um futuro movido a hidrogênio se torna cada vez mais concreto e, por que não afirmar, necessário.
 

Sobre o autor: Raphael Diniz é coordenador global de produtos para atmosferas explosivas na Schmersal Brasil.

Mais Lidas De Hoje
veja Também
Etanol
IA ajuda Raízen a antecipar riscos e combater incêndios ...
23/10/26
Descomissionamento
Painel dinâmico traz novas funcionalidades sobre ativida...
23/10/26
ANP
Encontro Nacional do PRH-ANP reúne 414 participantes com...
23/10/26
Gás Natural
Leilão da PPSA traz competitividade à indústria nacional
22/10/26
Firjan
Boletim Rio Exporta destaca que estado do Rio obtém cres...
21/10/26
Refino
Acelen assume naming rights e amplia presença da marca n...
21/10/26
Gás Natural
ANP adia audiência pública sobre o Gas Release para 19/11
21/10/26
Gás Natural
1º Leilão de Gás Natural da União tem 36 empresas habili...
20/10/26
BPC 2026
Eficiência, inovação e regulação dominam os debates hoje
20/10/26
ANP
Seminário da ANP debate desempenho da indústria de petró...
20/10/26
Biometano
White Martins amplia atuação em soluções energéticas com...
20/10/26
Pré-Sal
P-82 inicia viagem rumo ao Brasil
20/10/26
BPC 2026
Segurança energética e a nova onda da exploração
19/10/26
Evento
Brazilian Petroleum Conference (BPC 2026) começa na segu...
19/10/26
iBEM27
Terceiro encontro internacional de energia abre calendár...
19/10/26
Resultado
Produção de petróleo da União marca 313 mil barris por d...
19/10/26
Biometano
Necta destaca avanço do biometano em São Paulo durante a...
19/10/26
Fiscalização
ANP e Senacon fiscalizam mercado de combustíveis para co...
16/10/26
Energia Nuclear
Relatório global aponta que apoio à energia nuclear supe...
16/10/26
Pessoas
Presidente da ABiogás integra a lista "As 100 Mulheres P...
16/10/26
Resultado
Petrobras alcança R$ 800 bilhões em valor de mercado e r...
16/10/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

25