Gás natural

Brasil busca gás fora da Bolívia

Jornal do Commercio
20/04/2007 00:00
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Lula pensa na Argélia como uma possível fornecedora e diz que Morales enfrenta disputas políticas


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta-feira que as disputas políticas na Bolívia impedem o colega Evo Morales de cumprir acordos feitos com o governo brasileiro na área de gás. Em reunião com representantes de 11 partidos aliados no Palácio do Planalto, Lula avaliou, segundo participantes do encontro, que é preciso buscar o produto em outros países, como a Argélia, para garantir o abastecimento do mercado.

"Tive uma conversa longa e boa com Evo, mas os problemas continuam", teria dito o presidente, ao se referir à reunião mantida com o presidente boliviano na terça-feira, à margem da reunião de cúpula dos países sul-americanos sobre integração energética, em Isla Margarita, na Venezuela. Nessa reunião, Morales comunicou a Lula que não tinha intenção de indenizar integralmente a Petrobras pela desapropriação das duas refinarias da estatal no País. Em resposta, Lula teria dito que não vai aceitar calote.

Na reunião desta quinta-feira, Lula procurou minimizar a repercussão da conversa com Evo. Ele disse que a conversa foi positiva e que o líder boliviano tem dificuldades políticas de cumprir o que promete. Lula demonstrou ainda preocupação com um possível novo ato político de Evo Morales no feriado de 1º de maio. No dia do trabalhador do ano passado, tropas do exército boliviano ocuparam as instalações da Petrobras no campo de gás de San Antonio, na região do Chaco, para anunciar a nacionalização do setor. A medida aumentou a popularidade de Morales e foi o estopim de uma longa crise com o Brasil.

Nesta quinta-feira, Lula voltou a criticar seus antecessores por desenvolverem uma matriz energética do gás dependente de importações. "Não temos gás suficiente para atender a demanda do mercado nacional", reclamou, observando que a compra de gás liquefeito de países de fora do continente vai depender de novos investimentos em usinas de regaseificação no próprio Brasil. O gás da Argélia, alternativa levantada pela Petrobras no início do mês, iria complementar as importações da Bolívia. Isso só ocorreria a partir de 2012.

Tratores - Uma medida provisória publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial criou condições financeiras para a exportação de 300 tratores brasileiros para a Bolívia. O secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnaini, disse que haverá juros menores e prazos mais longos em operações de financiamento de exportações de bens ou serviços para países, projetos ou setores com limitações de acesso ao mercado. Mas a única operação em vista é com a Bolívia. O financiamento para os bolivianos, que deve ser realizado pelo BNDES, deverá somar US$ 25 milhões e foi acertado neste ano durante a visita de Evo Morales ao Brasil.

Na Bolívia, o presidente boliviano, Evo Morales, negou que tenha tido um desentendimento com o presidente Luiz Inácio Lula sobre as refinarias da Petrobras no país andino, durante a reunião de cúpula que ocorreu nesta semana na Venezuela. "Isso é totalmente falso. Com o companheiro Lula, temos muitas coisas em comum e amizade. Quero dizer que não houve nenhuma divergência", afirmou o boliviano, de acordo com a agência estatal de notícias do país.

Morales afirmou que a Petrobras está tentando vender as duas refinarias que possui na Bolívia, passando ao governo mais do que a participação majoritária requerida pelos termos de nacionalização naquele País. "A Petrobras demonstrou interesse em vender 100% das ações nas refinarias", disse o presidente, em conferência de imprensa em La Paz. No evento, Morales tratou do encontro que teve com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva durante a cúpula de energia ocorrida na Venezuela, no início da semana.

De acordo com o decreto de nacionalização lançado no ano passado, a Bolívia planeja assumir participação majoritária nas duas refinarias, que juntas respondem por quase todo o consumo doméstico de combustível. Os termos da transferência ainda precisam ser negociados.

Morales também sinalizou que a Bolívia pode pagar menos que a Petrobras pede. Segundo o presidente, as negociações entre os dois países vão determinar se os ativos serão vendidos com base em preços internacionais ou pelo valor pelo qual os ativos foram comprados na Bolívia.

A Petrobras comprou as duas refinarias em 1999, por US$ 100 milhões. Nesta quinta-feira, Morales indicou que a Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB) prefere reembolsar os custos originais para a Petrobras, em vez de pagar o valor de mercado total. "Os fatos nos dizem que eles (Petrobras) compraram as refinarias pelo preço boliviano original. O valor dos ativos está em debate e o diálogo entre a Petrobras e YPFB prossegue", disse o presidente.

Na quarta-feira, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que a companhia brasileira defenderia seu ponto de vista. A Petrobras alega que, desde a compra, investiu US$ 105 milhões nas refinarias.

Aprovação.Em setembro passado, o então ministro de Hidrocarbonetos, Andres Soliz Rada, anunciou o confisco das duas refinarias, em Cochabamba e Santa Cruz, sem indenização. Mas o Brasil contestou a medida e Morales demitiu Rada, e anulou o confisco.

O Congresso boliviano aprovou nesta quinta-feira 44 contratos com dez multinacionais do petróleo, incluindo a Petrobras, dando plena vigência à nacionalização dos hidrocarbonetos decretada em 1º de maio passado pelo presidente Evo Morales.

Um acordo político entre governo e oposição permitiu a aprovação, por unanimidade, dos contratos firmados com as multinacionais que atuam na Bolívia na exploração de petróleo e gás. O governo de Evo Morales assinou em outubro passado contratos de operação com a Petrobras, a espanhola Repsol, a francesa Total e as britânicas British Gas e British Petroleum, entre outras multinacionais.

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