Conversa no Pier

Nós e o pré-sal

Procurei o editor da TN Petróleo para encartar a Conversa no Píer nesta célebre publicação do meio Oil & Gas e Indústria Naval e todos os assuntos ficaram só no começo. Deve ter sido assim, como os primeiros perfuradores de petróleo em terra firme reagiam quando trespassavam a rocha mãe e o líquido preto jorrava a dezenas de metros de altura

Conversa no Pier
21/02/2014 14:13
Nós e o pré-sal Imagem: Ilustração: Portal Naval Visualizações: 391

Era o que faltava, se não faltava, caiu como uma luva.

Há anos não conversava com o amigo artista plástico, ex-editor de O Pasquim (o verdadeiro, o primeiro, quem viu, viu) e um dos principais incentivadores dos projetos do Instituto Brasil Costal, Benício Biz.

Procurei o editor da TN Petróleo para encartar a Conversa no Píer nesta célebre publicação do meio Oil & Gas e Indústria Naval e todos os assuntos ficaram só no começo. Deve ter sido assim, como os primeiros perfuradores de petróleo em terra firme reagiam quando trespassavam a rocha mãe e o líquido preto jorrava a dezenas de metros de altura... Tínhamos muitas pautas para atacar; arte, cultura, “jeito Brasil” de fazer negócios, meio ambiente, treinamento, construção naval, náutica, eventos do trade, tendência da matriz energética, aonde isso tudo vai parar, não vai, quem poderia dizer, etc...

Comparação tacanha à parte, o fato é que, ao ouvir um diálogo nas imediações de um estaleiro em Niterói, de trabalhadores na hora do almoço, me ocorreu estender a Conversa no Píer ao efervescente mundo do Pre-Sal e da indústria naval. Um trabalhador comentou com o outro:

- Não sei não. Me botaram lá, não sei como vai ser.

E o outro imediatamente replicou:

- Olha, não tem só gringo a bordo não. Dá pra se safar legal.

Conversavam sobre a dificuldade de comunicação, em inglês, provavelmente, a bordo de navios em manutenção e/ou instalação de equipamentos. Nenhuma novidade, mas este, e tantos outros, parecem ser problemas recorrentes no Brasil, desde sempre. Um paradoxo: de um lado, nossa história a partir do fatídico descobrimento é pontuada por influências externas (e raramente criamos tecnologia, a compramos, a copiamos, nos associamos a estrangeiros), de outro, não nos aculturamos com línguas estrangeiras, continuamos estranhando o idioma do outro. Se somos permeáveis, também somos indomáveis, por exemplo, não conseguimos padronizar nada, até uma simples bitola de trilho nós a transformamos numa gíria, sonoramente alterada para baitola. E a brincadeira como rotunda.

Teoria evolucionária

Revirava meu baú de aprendizagem e prática “hands on”, pensando escrever esta primeira colaboração para o Portal Naval, e lembrei de Shumpeter. Num corte transversal curto e grosso, até meados do século XX, os fisiocratas viam na terra e nos elementos da natureza a fonte dos valores dos bens, e os clássicos (de Adam Smith a Marx) defendiam que o valor era criado com o trabalho. Então surgiu Schumpeter, não por acaso em plena consolidação do império de Rockfeller, que chegou a refinar 90% de todo o petróleo mundial, pela Standard Oil. Até aqui, os neoclássicos defendiam que o valor se cristalizava nos preços, que por sua vez eram identificados precisamente nas curvas de oferta e demanda, tendendo a se auto equilibrarem. Assim, o valor migra do processo produtivo (nos clássicos), para o mercado (nos neoclássicos). Nada nunca foi por acaso, o mundo passou a girar cada vez mais rápido e Schumpeter vem com a teoria do fluxo circular (ciclos econômicos). Ele penetra na indústria para constatar que a “inovação” pode criar “valor” e insere outro plano na discussão: o da socialização do progresso técnico, da valorização do processo produtivo no seio das empresas.

 

Nessa mesma época se consolidavam as teorias clássicas de “management” de Ford, Taylor e Fayol (i.e. a administração, a cronometragem dos movimentos elementares, as metodologias e a psicotécnica). Se pudéssemos aferir qual foi o maior estrondo, ou qual o esguicho histórico que jorrou mais alto nesta época, talvez tenha sido a explosão de “standardization”, atrelada ou motora da proliferação das agências internacionais. Por isso, acho engraçado que ainda estejamos enredados nos chamados “marcos regulatórios”. Mas isso é outra história.

 

Shumpeter veio com a ideia de que a valorização se dá em função da concorrência, não a concorrência de preços, mas de novas mercadorias, técnicas, fontes de suprimento, excelência. Curioso é que Shumpeter nasceu no ano que morria Marx e também nascia Keynes, foi ministro das finanças da República Austríaca e presidente de um banco privado, na prática não se deu bem nem no estado, tampouco da iniciativa privada, faliu e retornou para a academia. Um teórico. Mas o seu problema era pensar à frente. Na sua época não existiam os computadores para acessar todas as variantes que suas teorias demandavam. Hoje estamos dependendo das metodologias dos fractais (da computação à nanotecnologia, das bolsas de valores às coqueluches de fitness), temos monumentais recursos de cálculo e análise, mas não sabemos utilizá-los na tomada de decisões.

 

Pre-Sal e o Ambiente Total

 

Trouxe esse imbróglio à tona de propósito. Para realçar a minha modesta teoria do Ambiente Total. Primeiro atacando o equívoco de nos referirmos ao derredor de tudo com a expressão “meio ambiente”. Meio de metade? Meio de mais ou menos? De centro, ou de métier? Segundo, há os meios de fato que formam o todo e se interdependem. Nesse sentido, o ambiente petrolífero não pode ser dissociado da construção civil, nenhum pode prescindir da matriz de logística, inclusa a frota marítima (existente e nas pranchetas), da indústria agropecuária e pesqueira, e assim por diante, mais do que nunca, até desembocarmos no mar, que é um mundo nada à parte.

 

E nisso o Pre-Sal transporta um grande mérito agregado; parece estar mudando a nossa postura do mito da caverna, em que estivemos desde 1500, de costas para o ambiente marinho.

 

Por fim, pensar o ambiente total elimina a angústia pela sustentabilidade. Angústia maior quando se pretende ser autossustentável. Considerando a inteligência adquirida, por um silogismo então depreende-se que há empresas que não buscam a sustentabilidade? Ora, ou elas pensam no ambiente total, ou algo não funciona bem em seus processos, ponto. Quanto a ser autossustentável, só se retornarmos à caverna. Deste ponto, eu poderia digredir por inúmeros caminhos, mas novamente vou puxar a brasa para meu assado, deixando uma questão em aberto: por que os meios naval, do petróleo e do gás não abrem espaço em suas agendas para uma indústria nanica, mas nem tanto, da náutica, cito a utilização do ambiente costeiro e marinho para o lazer e o turismo, esporte e atendimento de demandas sociais, através de marinas, embarcações e práticas saudáveis? Está à venda o meu peixe, e o de uma massa crítica indispensável de interessados. Afinal de contas, se é certo que a vida é melhor com um barco, fazer negócios a bordo é muito melhor também, do que num ambiente climatizado.

 

Nós

 

Estava a ponto de colocar um ponto final (ou reticências) aqui, quando me dei conta de que deveria concluir um raciocínio iniciado anteriormente: nos falta capacitação. E lembrei que sofremos de um problema de semântica (ou seja, não conseguimos sequer aprender a nossa própria língua) ao considerarmos o nosso arcabouço de ensino no âmbito da “educação” (um equívoco) e não da “aprendizagem”, caminho mais exato na “formação” real de profissionais. Somos educados para trabalharmos como engenheiros, mas não aprendemos engenharia, enquanto estudamos. Como técnicos, aprendemos a soldar (através da repetição: “faz assim, oh”), mas não aprendemos (assimilamos) sobre a física e química envolvidas no processo de solda, o que nos daria estofo cultural, e visão periférica mais abrangente. Pano pra manga...

 

Mas o nó final para este artigo surgiu numa conversa com outro amigo, especialista em cabos de amarração de plataformas de petróleo (entre outros produtos que dependem de nós), André Vasconcellos, da CSL Marinharia e Cordoaria, empresa de suprimentos de cabos e amarras de alto desempenho. Disse-me ele: “hoje não há mais a concorrência como antigamente, nosso foco deve estar em nós mesmos e no target, direto e indireto. E mais, nosso esforço deve ser para fazer com que ele – o target – nos procure, e não como fazíamos no passado, ir atrás de porta em porta.”

 

Concordo. Mas é preciso ter coragem, confiança na experiência adquirida, excelência de qualidade, preço e atendimento. Claro, nunca dispensar uma boa indicação. Por isso, se você tiver alguma dica para a Conversa no Píer no Portal Naval, não se acanhe, venha até nós, estamos de braços abertos.

 

Um último recado: em breve anunciaremos aqui a inauguração do Museu dos Nós, inédito no mundo.
 

 


Luís Peazê é escritor, tradutor de Ernest Hemingway e jornalista. Presidente do Instituto Brasil Costal – BRCostal e construtor de barcos de madeira, editora da revisa online Conversa no Píer©www.conversanopier.com.br

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