Macroeconomia

Produção industrial cai 3,5% e indica PIBs trimestrais fracos

Dados são do IBGE.

Valor Econômico
05/02/2014 10:50
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Produção industrial cai 3,5% e indica PIBs trimestrais fracos
O acúmulo de estoques, a concessão acima do normal de férias coletivas, a paralisação de uma refinaria e o efeito do aumento da taxa básica de juros iniciado em abril fizeram a produção industrial cair 3,5% em dezembro na comparação com novembro, descontados os efeitos sazonais. Esse foi o pior resultado mensal desde o fim de 2008, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O tombo mais forte que o esperado levou analistas a reduzir estimativas para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre do ano passado, agora concentradas abaixo de 0,5%. Se confirmado, o resultado pode afetar também o PIB do início de 2014. Para alguns economistas, o resultado torna mais complexa a gestão da política monetária para o Banco Central.
A forte contração de dezembro consolidou um quadro de retração na produção industrial que marcou todo o segundo semestre do ano passado. Ela caiu 0,8% no quarto trimestre sobre o terceiro, quando já havia recuado 1,3% sobre o segundo trimestre, sempre na série com ajuste sazonal.
Em dezembro, 22 dos 27 ramos de atividade analisados pelo IBGE na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) diminuíram sua produção ante o mês anterior, com destaque para o de veículos automotores, que encolheu 17,5%. Calculado pela LCA Consultores, o índice de difusão da indústria (percentual de setores que elevaram sua produção na comparação mensal com ajuste) ficou em apenas 18,5% no último mês do ano passado, também menor resultado desde dezembro de 2008.
Ao contrário do fim de 2012, quando a retração de 2,5% da produção foi sucedida por perspectivas de recuperação no ano seguinte, economistas consultados pelo Valor avaliam que 2014 ainda será um ano difícil para o setor. Para eles, no cenário doméstico, o aumento dos juros e a moderação do consumo jogam contra um crescimento expressivo da indústria, enquanto, do lado externo, a crise na Argentina e a continuidade da normalização da política monetária pelo Fed (o banco central americano) devem manter alto o nível de incertezas dos empresários.
Segundo dados da pesquisa, 1,3 mil empresas indicaram a concessão de férias coletivas em dezembro, 20% mais que em dezembro de 2012. Para André Macedo, gerente da coordenação da indústria do IBGE, estoques elevados e menor demanda explicam as paralisações programadas que afetaram o resultado de dezembro.
Na avaliação do economista do IBGE, contudo, o resultado de 2013, quando a indústria fechou o ano com alta de apenas 1,15% sobre 2012, não tem uma única explicação. "Uma série de fatores elencados nos últimos meses explica o comportamento da indústria, como a grande presença de produtos importados no mercado doméstico, menor demanda internacional, estoques elevados, inadimplência e endividamento das famílias. O novo componente para esse comportamento da indústria [no segundo semestre] foi o aumento da taxa básica de juros a partir de abril", afirmou Macedo.
Além de veículos automotores, Macedo apontou outras indústrias cuja atividade foi afetada pelas folgas de fim de ano, como máquinas e equipamentos, com queda de 6,2% em dezembro sobre novembro, e refino de petróleo e produção de álcool, com baixa de 4,3%. Neste último setor, a paralisação da refinaria da Petrobras no Paraná, após um acidente, também teve influência negativa.
O economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, afirma que a decisão das empresas pode ter sido reflexo do calendário, já que, no ano passado, os feriados de Natal e Ano Novo caíram no meio da semana, mas também deve ter levado em conta a necessidade de reduzir o volume de mercadorias paradas.
Em sua opinião, o processo de ajuste de estoques não deve se prolongar no início deste ano e janeiro pode ser um mês de comportamento positivo da produção, mas não há expectativa de forte reação ao longo de 2014. "Uma expansão de 1,5% da produção no ano já pode ser considerada favorável", comentou.
De acordo com Leal, fatores que já prejudicaram a confiança dos empresários e a produção em 2013 continuarão presentes este ano, como a piora das condições financeiras, em função do aumento dos juros, e a volatilidade cambial. Há, ainda, uma novidade que pode ter impacto negativo sobre a exportação de manufaturados: a crise na Argentina. O economista lembra que, após o início da adoção de barreiras às importações pelo país vizinho, no começo de 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desacelerou com força no segundo trimestre daquele ano.
Para Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity, a demanda doméstica ainda é o principal determinante para o comportamento da indústria. Mesmo assim, ele projeta que a produção vai crescer menos em 2014 do que em 2013, em linha com as perspectivas para a atividade em geral. Bassoli trabalha com alta de 1,6% para o PIB na média deste ano, abaixo dos 2,3% previstos para o ano passado. Ele menciona que a perda de fôlego da atividade agrícola, em função do avanço menor das safras, vai moderar o desempenho da indústria de máquinas e equipamentos voltados para o setor.
Ainda dentro da indústria de bens de capital, o economista afirma que o processo da normalização da produção de caminhões que sustentou a recuperação dos investimentos em capital fixo no primeiro semestre de 2013 já se esgotou. Junto a este fator mais conjuntural, a estagnação da produtividade e a manutenção do ambiente de pouca previsibilidade econômica não são propícios ao aumento dos investimentos, acrescenta Bassoli.
Na passagem de novembro para dezembro, a produção de bens de capital diminuiu 11,6%, variação vista pelos analistas como um mau indicativo para a evolução da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil) no trimestre final de 2013. Nos cálculos com ajuste sazonal de Rodrigo Nishida, da LCA, a retração foi disseminada pelas atividades que compõem esse setor, com destaque para veículos automotores (-30,2%) e máquinas para escritório e equipamentos de informática e (-14,1%).
"Isso é um indicativo de um resultado ruim para o PIB tanto pelo lado da oferta como pelo lado da demanda", diz Nishida. Após a divulgação do dado da indústria de dezembro, a consultoria cortou de 0,7% para 0,4% sua projeção para a expansão da economia entre o terceiro e o quarto trimestres do ano passado.

O acúmulo de estoques, a concessão acima do normal de férias coletivas, a paralisação de uma refinaria e o efeito do aumento da taxa básica de juros iniciado em abril fizeram a produção industrial cair 3,5% em dezembro na comparação com novembro, descontados os efeitos sazonais. Esse foi o pior resultado mensal desde o fim de 2008, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O tombo mais forte que o esperado levou analistas a reduzir estimativas para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre do ano passado, agora concentradas abaixo de 0,5%. Se confirmado, o resultado pode afetar também o PIB do início de 2014. Para alguns economistas, o resultado torna mais complexa a gestão da política monetária para o Banco Central.

A forte contração de dezembro consolidou um quadro de retração na produção industrial que marcou todo o segundo semestre do ano passado. Ela caiu 0,8% no quarto trimestre sobre o terceiro, quando já havia recuado 1,3% sobre o segundo trimestre, sempre na série com ajuste sazonal.

Em dezembro, 22 dos 27 ramos de atividade analisados pelo IBGE na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) diminuíram sua produção ante o mês anterior, com destaque para o de veículos automotores, que encolheu 17,5%. Calculado pela LCA Consultores, o índice de difusão da indústria (percentual de setores que elevaram sua produção na comparação mensal com ajuste) ficou em apenas 18,5% no último mês do ano passado, também menor resultado desde dezembro de 2008.

Ao contrário do fim de 2012, quando a retração de 2,5% da produção foi sucedida por perspectivas de recuperação no ano seguinte, economistas consultados pelo Valor avaliam que 2014 ainda será um ano difícil para o setor. Para eles, no cenário doméstico, o aumento dos juros e a moderação do consumo jogam contra um crescimento expressivo da indústria, enquanto, do lado externo, a crise na Argentina e a continuidade da normalização da política monetária pelo Fed (o banco central americano) devem manter alto o nível de incertezas dos empresários.

Segundo dados da pesquisa, 1,3 mil empresas indicaram a concessão de férias coletivas em dezembro, 20% mais que em dezembro de 2012. Para André Macedo, gerente da coordenação da indústria do IBGE, estoques elevados e menor demanda explicam as paralisações programadas que afetaram o resultado de dezembro.

Na avaliação do economista do IBGE, contudo, o resultado de 2013, quando a indústria fechou o ano com alta de apenas 1,15% sobre 2012, não tem uma única explicação. "Uma série de fatores elencados nos últimos meses explica o comportamento da indústria, como a grande presença de produtos importados no mercado doméstico, menor demanda internacional, estoques elevados, inadimplência e endividamento das famílias. O novo componente para esse comportamento da indústria [no segundo semestre] foi o aumento da taxa básica de juros a partir de abril", afirmou Macedo.

Além de veículos automotores, Macedo apontou outras indústrias cuja atividade foi afetada pelas folgas de fim de ano, como máquinas e equipamentos, com queda de 6,2% em dezembro sobre novembro, e refino de petróleo e produção de álcool, com baixa de 4,3%. Neste último setor, a paralisação da refinaria da Petrobras no Paraná, após um acidente, também teve influência negativa.

O economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, afirma que a decisão das empresas pode ter sido reflexo do calendário, já que, no ano passado, os feriados de Natal e Ano Novo caíram no meio da semana, mas também deve ter levado em conta a necessidade de reduzir o volume de mercadorias paradas.

Em sua opinião, o processo de ajuste de estoques não deve se prolongar no início deste ano e janeiro pode ser um mês de comportamento positivo da produção, mas não há expectativa de forte reação ao longo de 2014. "Uma expansão de 1,5% da produção no ano já pode ser considerada favorável", comentou.

De acordo com Leal, fatores que já prejudicaram a confiança dos empresários e a produção em 2013 continuarão presentes este ano, como a piora das condições financeiras, em função do aumento dos juros, e a volatilidade cambial. Há, ainda, uma novidade que pode ter impacto negativo sobre a exportação de manufaturados: a crise na Argentina. O economista lembra que, após o início da adoção de barreiras às importações pelo país vizinho, no começo de 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desacelerou com força no segundo trimestre daquele ano.

Para Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity, a demanda doméstica ainda é o principal determinante para o comportamento da indústria. Mesmo assim, ele projeta que a produção vai crescer menos em 2014 do que em 2013, em linha com as perspectivas para a atividade em geral. Bassoli trabalha com alta de 1,6% para o PIB na média deste ano, abaixo dos 2,3% previstos para o ano passado. Ele menciona que a perda de fôlego da atividade agrícola, em função do avanço menor das safras, vai moderar o desempenho da indústria de máquinas e equipamentos voltados para o setor.

Ainda dentro da indústria de bens de capital, o economista afirma que o processo da normalização da produção de caminhões que sustentou a recuperação dos investimentos em capital fixo no primeiro semestre de 2013 já se esgotou. Junto a este fator mais conjuntural, a estagnação da produtividade e a manutenção do ambiente de pouca previsibilidade econômica não são propícios ao aumento dos investimentos, acrescenta Bassoli.

Na passagem de novembro para dezembro, a produção de bens de capital diminuiu 11,6%, variação vista pelos analistas como um mau indicativo para a evolução da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil) no trimestre final de 2013. Nos cálculos com ajuste sazonal de Rodrigo Nishida, da LCA, a retração foi disseminada pelas atividades que compõem esse setor, com destaque para veículos automotores (-30,2%) e máquinas para escritório e equipamentos de informática e (-14,1%).

"Isso é um indicativo de um resultado ruim para o PIB tanto pelo lado da oferta como pelo lado da demanda", diz Nishida. Após a divulgação do dado da indústria de dezembro, a consultoria cortou de 0,7% para 0,4% sua projeção para a expansão da economia entre o terceiro e o quarto trimestres do ano passado.

 

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