Entrevista Exclusiva

Sustentabilidade: indústria de O&G é parte da solução

Redação TN Petróleo/Beatriz Cardoso
21/09/2023 14:05
Sustentabilidade: indústria de O&G é parte da solução Imagem: Divulgação Visualizações: 2265

Na segunda parte da entrevista com Priscila Moczydlower (foto), diretora de Sustentabilidade da SPE Seção Brasil, a questão social e o papel da indústria de óleo e gás na expansão da cadeia de geração de energias renováveis são destacados pela chair do comitê executivo do SPE Brazil Sustainability Symposium (https://sbs2.spebrasil.org/), que a SPE Brasil realiza entre os dias 3 e 5 de outubro, no Rio de Janeiro. A TN Petróleo é mídia suporte desse evento que vai reunir  especialistas e stakeholders da cadeia produtiva de óleo e gás.

Quais são os maiores desafios para que a indústria possa, efetivamente,  ser protagonista da transição energética e de uma economia de baixo carbono? São desafios humanos, de gestão ou são tecnológicos?

Priscila Moczydlower – São todos esses juntos e ainda adicionaria o desafio regulatório. É necessário criar o mesmo nível de conhecimento técnicos sobre renováveis que hoje temos dentro das empresas de óleo e gás para modelagem de reservatórios, por exemplo, ou perfuração e completação de poços, projetos de plataformas de produção e sistemas submarinos. Isso já está sendo feito, mas a capacitação e treinamento requer tempo. E é difícil redirecionar pessoas que trabalham em áreas extremamente técnicas, como é a característica da nossa indústria, para um assunto completamente diferente, como eólica ou solar. Durante o simpósio, na sessão Youth Arena serão discutidos exatamente os desafios de capacitação e mercado de trabalho da indústria de O&G no contexto da transição energética.

Outro desafio claro é o tecnológico, pois muitas soluções de redução de emissões de carbono e aumento de eficiência energética ainda estão em fase de desenvolvimento ou são muito caras e precisam de investimentos para se tornarem comerciais. Ligado a esse aspecto está a questão regulatória, principalmente quanto ao mercado de carbono. A criação de leis sobre mercado de carbono deve levar em conta os incentivos necessários para que essas soluções sejam desenvolvidas e de fato implementadas nas empresas, bem como trazer segurança jurídica.

Fala-se  muito da sustentabilidade ambiental e emergência climática. Mas o que é necessário que as empresas façam para ter também a sustentabilidade social?

Do ponto de vista ambiental está muito claro o que as empresas precisam fazer. Existem hoje leis e regulamentações sobre limites quantificáveis do que se pode ou não fazer. Todo mundo consegue medir quantas toneladas de carbono emitiu ou deixou de emitir, com alguma precisão. Mas quando vamos para o âmbito social, a questão é mais complexa. A licença social para operar é muito mais subjetiva. Não está expressa em nenhuma lei e muda caso a caso, de acordo com a localidade, as pessoas e partes envolvidas.

Quais os maiores desafios nesse sentido?

Questões como respeito aos direitos humanos, promoção da diversidade e inclusão e operação com impacto social positivo são extremamente relevantes e devem ser igualmente consideradas por empresas em seus planejamentos estratégicos e direcionadores. Não é mais aceitável operar sem considerar o impacto que se causa às pessoas das comunidades vizinhas ou permitir que aconteçam violências no ambiente de trabalho, seja dentro da própria empresa ou em sua cadeia de fornecedores. Desta forma, é necessário que as empresas estejam atentas a esses pontos, considerem os impactos para as partes interessadas, e que implementem ações para minimizar os riscos sociais de suas atividades.

A expertise consolidada pela indústria offshore na E&P de petróleo poderão contribuir, de alguma forma, para agilizar a implantação de projetos eólicos offshore? Será uma tendência natural as oil companies também desenvolverem projetos eólico offshore?

Diante do cenário de transição energética e redução gradual do uso dos combustíveis fósseis, é uma tendência natural das oil companies diversificarem suas atividades, investindo em energias renováveis como um todo. Tanto para garantir a sua sobrevivência no longo prazo como também para se ‘encaixarem’ nas necessidades da sociedade de um mundo com menos emissão de carbono. A geração eólica offshore é uma opção muito atrativa para esse tipo de investimento, especialmente por causa do grande potencial da costa brasileira. Embora os desafios tecnológicos, bem como impactos ambientais e sociais, sejam diversos do comumente encontrados durante a produção de petróleo e gás, acredito que esse tipo de projeto tenderá, sim, a crescer como alternativa de investimento para operadoras nos próximos anos.

Enfim, os hidrocarbonetos efetivamente fazem parte da solução...

A humanidade hoje ainda depende muito de petróleo e gás e até mesmo de carvão, que é uma fonte de energia ainda com maior intensidade de emissões de gases de efeito estufa. Imagine o que aconteceria se hoje todas as operadoras do mundo fechassem seus poços produtores. A grande maioria dos transportes seria paralisada: carros, caminhões, aviões, navios. Sem comércio, as pessoas não teriam como comprar alimentos e bens, seria o caos. As indústrias que hoje queimam gás para geração de energia parariam. Os subprodutos provenientes da petroquímica, como fármacos, plásticos e fertilizantes ficariam em falta. Em suma, hoje nossa dependência ainda é enorme. Claro que queremos mudar isso. A crise climática é real e requer essa mudança de forma urgente, mas para que isso aconteça, é necessário ainda um volume muito grande de investimento em infraestrutura para renováveis, novas tecnologias e o avanço de legislações. Enquanto isso, nossa indústria tem o importante papel de estar sempre buscando fazer o melhor, tanto do ponto de vista ambiental quanto social, mas creio que estamos no caminho certo!

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