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Crise na Venezuela e a Incerteza Logística que Já Redefine Suprimentos no Oil & Gas, por Alexandre do Valle, PhD

Redação TN Petróleo/Assessoria
09/01/2026 12:30
Crise na Venezuela e a Incerteza Logística que Já Redefine Suprimentos no Oil & Gas, por Alexandre do Valle, PhD Imagem: Divulgação Visualizações: 939

A crise na Venezuela deixou de ser apenas um capítulo de instabilidade política para se tornar um fator tangível de incerteza nas cadeias de suprimentos e logística ligadas ao setor de óleo e gás. Desde o início de 2026, a captura do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas e a intensificação das sanções dos Estados Unidos mexeram com a previsibilidade das exportações venezuelanas. Rotas marítimas antes tidas como relativamente estáveis no Caribe passaram a ser evitadas, com navios navegando em “modo escuro” (sem rastreamento ativo) para escapar de ações de fiscalização e sanção. Essa realidade fragilizou janelas logísticas globais usadas como referência estratégica por compradores e fornecedores, transformando o transporte de petróleo, equipamentos e serviços em uma área de risco contínuo.
As entregas de petróleo para destinos na Ásia ficaram paralisadas por dias, e embarcações com documentação questionável ou sem bandeira conhecida passaram a circular na região, o que reduz a aceitabilidade em portos e complica acesso a seguros e serviços essenciais. Esse cenário, reportado por agências como Reuters, serve de evidência de que a instabilidade política está tendo impacto direto em decisões operacionais. O comprador hoje lida com cláusulas que precisariam prever eventos extremos, com custos de seguro que sobem e com prazos que já não resistem a uma intervenção geopolítica repentina.

Nesse ambiente volátil, a negociação entre compradores e fornecedores mudou de tom. O engenheiro Rodrigo Ferro, gerente de operações no mercado offshore, relata que já enfrenta dificuldades logísticas em processos que agora precisam ser recalculados para cumprir os SLAs contratuais acordados. Ele aponta que rotas que antes eram usadas com relativo grau de certeza agora têm suas janelas de trânsito continuamente reavaliadas, fragilizando compromissos de entrega e dificultando a manutenção de cronogramas em projetos de exploração e produção. Essa pressão sobre a previsibilidade da cadeia de suprimentos gera um impacto direto nas tratativas comerciais: não se discute apenas prazo ou custo, mas “se”, e em que condição, determinada carga chegará ao destino.
Uma análise publicada na Supply Chain Magazine Portugal reforça que esta crise geopolítica elevou o risco estrutural para muitas empresas expostas à logística marítima no Caribe. Especialistas em supply chain sinalizam que o risco geopolítico deixou de ser um fator ocasional e passou a ser uma variável permanente na gestão de fluxos comerciais, obrigando operadores logísticos e compradores a reavaliarem portos, rotas e hubs como ativos sensíveis não apenas pelo custo, mas pela segurança operacional e de conformidade legal.

No centro dessa transformação está a intensificação das ações dos Estados Unidos, com apreensões de navios sancionados e reforço de sanções que forçam embarcações a buscar rotas alternativas. Esse movimento tem impacto direto sobre empresas brasileiras que importam equipamentos, peças e módulos ou que dependem da mobilização de serviços internacionais para projetos no Atlântico Sul. Mesmo que a Venezuela não seja um grande parceiro comercial direto do Brasil, o trânsito de cargas por corredores que passam próximo às zonas de risco agora está sujeito a tempos de trânsito estendidos, aumento de prêmio de risco em seguros, e maior rigidez em processos de compliance. O resultado é que negociações contratuais – que já eram complexas em razão de mercados voláteis – passaram a incorporar cláusulas específicas sobre eventos geopolíticos, revisões de responsabildiades de transporte e novos patamares de garantias exigidas por fornecedores para assumir riscos que até recentemente não faziam parte das discussões comerciais.
Relatórios de mercado apontam que a combinação de sanções, bloqueios e incertezas operacionais está encarecendo fretes e seguros, ao mesmo tempo em que operadores logísticos reconsideram o uso de determinadas rotas no Caribe e no Atlântico Norte antes consideradas “padrão”. Essa reverberação cria uma pressão adicional sobre prazos de projetos e sobre a mobilização de serviços, que precisam ser ajustados a cronogramas cada vez mais fluídos e sujeitos a variações geopolíticas rápidas.

Essa mudança de paradigma não se restringe ao setor de óleo e gás. Outras cadeias logísticas que dependem de corredores críticos no Caribe já começam a registrar efeitos semelhantes: tempos de trânsito mais longos, maior custo de transferência de risco e retrabalho documental para garantir conformidade legal. Para o comprador, isso significa que decisões comerciais entre fornecedores e compradores não giram mais apenas em torno de preço e entrega; giram em torno da capacidade de ambos de administrar incertezas que nunca antes se apresentaram com tanto peso operacional.
A crise venezuelana serve como um lembrete de que um evento geopolítico pode, em questão de dias, reconfigurar o mapa de riscos logísticos e financeiros de uma cadeia inteira. A imprevisibilidade se tornou literal para quem depende de carregamentos que cruzam áreas de tensão. E é nessa incerteza que os fornecedores e compradores, sentados à mesa de negociação, precisam decidir até onde estão dispostos a assumir risco e onde traçar os limites contratuais que protejam seus negócios e operações.

 

Sobre o autor: Alexandre do Valle é PhD na área de engenharia de suprimentos com foco em projetos digitais pela Universidade Federal Fluminense. Mestrado em tecnologia de Blockchain com foco em ferramentas e processos de digitalização para a cadeia de suprimentos. Pós-graduação em Gestão de Projetos pela Universidade Federal Fluminense e MBA em Projetos de Energia e ESG pela COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Consultor sênior para a empresa 2BSUPPLY. Psicanalista e Coach Profissional com certificação pelo IGT, International Coach Federation e ICF Brasil, tendo como ênfase análise comportamental e clareza de metas nas áreas profissionais e pessoais.

 

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