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Egos e pressão por resultados nos mundos acadêmico e corporativo, por Marcos Minoru Nakatsugawa

Redação TN Petróleo/Assessoria
18/04/2023 06:51
Egos e pressão por resultados nos mundos acadêmico e corporativo, por Marcos Minoru Nakatsugawa Imagem: Divulgação Visualizações: 1489

O mundo acadêmico, usado como válvula de escape para muitas pessoas que se cansam das idiossincrasias da vida corporativa, também não é flor que se cheire. Na academia, há igual (ou até maior) pressão por resultados -- com a diferença de que os indicadores a melhorar não são lucros ou EBITDA, mas sim quantidade de publicações em revistas de proeminência, de apresentações em congressos internacionais, entre outros.

Também as disputas egóicas, que nas empresas se acentuam à medida que se ascende na pirâmide organizacional, são semelhantes no ambiente acadêmico -- com a diferença de que, no ambiente acadêmico, o pedantismo é a mola propulsora dos conflitos.

Diederik Stapel, pesquisador no campo da Psicologia Social da Universidade de Tilburg, na Holanda, estudava temas extremamente populares e contemporâneos, como estereótipos e discriminação, a eficácia da publicidade e as circunstâncias em que as pessoas, de modo perverso, preferiam feedbacks negativos a positivos.

Além da "popularidade" dos assuntos, Stapel era extremamente provocativo nas conclusões a que chegava, com seus estudos: por exemplo, um artigo seu, publicado na afamada revista "Science", afirmava que meios sociais desestruturados, como ruas cheias de lixo, tornavam as pessoas mais propensas a praticar discriminação e a estereotipar as demais.

Acusado por pesquisadores juniores de sua equipe, investigações baseadas em modelos estatísticos concluíram que Stapel forjou dados em dezenas de artigos e em 14 das 21 teses de doutorado que ele supervisionara.

O impacto é ainda maior quando se trata de Psicologia Social, porque experimentos [ou pseudoexperimentos, em alguns casos] nessa área de conhecimento têm se propagado como vírus nas redes sociais, dado seu apelo emocional -- que, por outro lado, é precisamente a fonte de críticas de muitos pesquisadores sérios, que condenam tal superexposição midiática.

Quer um exemplo? Você já deve ter visto aquele "experimento" em que um suposto "menino de rua" e uma caloura de faculdade que faz "pedágio" no semáforo pedem dinheiro aos motoristas, não? Resultado: normalmente, a moça ganha mais que o rapaz.

Quem explica esse fenômeno é a Psicologia Social, mais especificamente os estudos sobre cognição social - que investiga como os processos mentais afetam a maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras.

Fugindo do "popularesco" e voltando especificamente aos impactos nefastos da conduta de Stapel no meio puramente acadêmico, há os pesquisadores que publicaram artigos com ele e outros que usaram suas publicações, referenciando-as em seus estudos: por dever de ofício, esses pesquisadores precisam, como efeito dominó, retratar-se ou mesmo refazer suas pesquisas.

Em comunicado oficial, Stapel admitiu a fabricação de dados e pediu desculpas à comunidade acadêmica, dizendo: "Eu falhei como cientista".

De imediato, lembrei-me da confissão de altos executivos da montadora alemã VW envolvidos no famoso "escândalo dos motores a diesel", que possuíam um dispositivo eletrônico que mascarava a quantidade de poluentes emitidos por seus veículos. Não sei se disseram "Nós falhamos como executivos", mas se não o fizeram, deveriam ter-se assim pronunciado.

O processo de desinflar o ego é parte fundamental do desenvolvimento das pessoas em qualquer ambiente, seja acadêmico ou corporativo.
 

Sobre o autor: Marcos Minoru Nakatsugawa é Administrador de empresas e psicólogo formado pela USP, com pós-graduação lato sensu e especialização em Organização e Recursos Humanos pela EAESP/FGV-SP. Mestre em Finanças e Governança Corporativa pela FECAP. Especialização em Psicologia Organizacional e do Trabalho pelo CFP - Conselho Federal de Psicologia.

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