Estudo

Brasil amplia dependência de térmicas, mas falta de estocagem de gás pode elevar custos e risco ao sistema, aponta levantamento

Estudo da Mirow & Co. indica que ausência de mecanismos de flexibilidade já custa até US$ 12,4/MMBtu e limita competitividade do país frente a mercados internacionais.

Redação TN Petróleo/Assessoria Mirow & Co.
06/04/2026 13:11
Brasil amplia dependência de térmicas, mas falta de estocagem de gás pode elevar custos e risco ao sistema, aponta levantamento Imagem: Divulgação Garciariel Thermoelectric Visualizações: 1361

O recente avanço das térmicas a gás natural no Brasil, reforçado pelo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), que aconteceu no dia 20 de março, mostra um novo desafio estrutural para o setor energético: a falta de flexibilidade no mercado de gás. Embora o país esteja ampliando a oferta da molécula, a ausência de infraestrutura de estocagem e mecanismos de balanceamento pode elevar custos, aumentar a volatilidade e comprometer a segurança do abastecimento, podendo custar até US$ 12,4 por MMBtu.

Segundo análise da Mirow & Co., consultoria de estratégia com mindset global, o Brasil caminha para um cenário em que haverá gás suficiente em termos volumétricos, mas sem capacidade de resposta adequada às variações de demanda, especialmente diante do crescimento da geração térmica e da maior participação das fontes renováveis. "O país não enfrenta mais um problema de escassez de gás, mas sim de flexibilidade. Sem estocagem e instrumentos de curto prazo, o sistema não consegue absorver choques de oferta e demanda de forma eficiente", afirma Raoni Morais, especialista da Mirow.

O tema ganha relevância após o LRCAP contratar cerca de 19 GW de potência, majoritariamente de usinas termelétricas a gás natural, em um movimento que reforça o papel do combustível na segurança do sistema elétrico. No entanto, essas usinas exigem disponibilidade imediata e previsível de gás, algo que depende diretamente de uma infraestrutura ainda incipiente no país.

Hoje, o Brasil é o único grande mercado consumidor de gás natural sem capacidade relevante de estocagem subterrânea em operação. Em mercados maduros, como Estados Unidos e Europa, essa infraestrutura é parte central do funcionamento do setor, permitindo reduzir volatilidade, otimizar preços e garantir segurança energética. Na ausência desses mecanismos, o custo da flexibilidade já se mostra elevado. A Mirow estima que o spread associado ao balanceamento no sistema brasileiro esteja entre US$ 10,5 e US$ 12,4 por MMBtu, uma proxy do custo de lidar com um mercado pouco flexível.

Além disso, o perfil da oferta de gás no país está mudando. O crescimento da produção vem sendo puxado pelo gás associado ao petróleo, especialmente do pré-sal, que possui menor capacidade de ajuste à demanda. Ao mesmo tempo, fontes historicamente mais flexíveis perdem relevância, como o gás importado da Bolívia, que está em declínio comercial. "O Brasil está entrando em uma fase em que conta com mais gás disponível, mas sem a infraestrutura necessária para transformá-lo em preço competitivo e previsibilidade. Esse descompasso tende a se tornar mais evidente com o aumento do despacho térmico", diz Raoni.

O gás natural liquefeito (GNL), embora relevante, também não resolve integralmente o problema. No país, seu uso é majoritariamente voltado ao atendimento de usinas termelétricas, sem desempenhar o papel sistêmico de equilíbrio que a estocagem proporciona em outros mercados.

Segundo análises de especialistas da Mirow, o avanço do setor passa pela criação de condições para o desenvolvimento de estocagem de gás e mecanismos de balanceamento, além da evolução para um hub físico que permita maior liquidez e integração entre agentes. "A ampliação da oferta é significativa, mas não suficiente. A competitividade sustentável do mercado de gás depende da capacidade de equilibrar o sistema ao longo do tempo, e isso exige infraestrutura e instrumentos que o Brasil ainda não possui", conclui.

O estudo da consultoria avalia que a janela entre 2028 e 2029 pode representar uma oportunidade para estruturar esse mercado, com o aumento da produção do pré-sal e maior disponibilidade de infraestrutura, criando condições para arbitragem e desenvolvimento de soluções de flexibilidade.
 

Sobre a Mirow & Co. - Mirow & Co. (mirow.com.br) é uma consultoria de estratégia com mindset global que entrega conhecimento funcional e em diferentes indústrias de uma forma ágil e flexível. Seus trabalhos contemplam decisões estratégicas que vêm direcionando empresas de energia, automotivas, do agronegócio, de infraestrutura, papel e celulose, entre outros setores, para a nova economia, gerando valor a seus negócios e impactando o mercado de modo sustentável. Liderada por Andreas Mirow, Elmar Gans e Felipe Diniz, possui consultores associados em escritórios em São Paulo e Rio de Janeiro e uma ampla rede de parceiros globais em diferentes países. O modelo de atuação da Mirow alia forte capacidade de inovação à implementação e proporciona a melhor experiência para seus clientes, em função de seu jeito único de ser e atuar. Por sua atuação, recebeu o selo Great Place To Work e a certificação pelo Sistema B no Brasil, um reconhecimento pelo impacto social, ambiental e econômico de sua atuação.

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