Energia
Valor Econômico
A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) encerrou o ano de 2008 com um prejuízo bilionário de R$ 2,35 bilhões. Não foram as operações da companhia ou o esperado impacto da variação cambial sobre a sua dívida em dólar os responsáveis por tão grande perda. O prejuízo foi consequência da aplicação das novas regras contábeis.
Uma das novas regras obriga empresas a realizar reavaliações periódicas de alguns tipos de ativos, como usinas, por exemplo. E quando o resultado da reavaliação aponta para um preço inferior ao chamado valor histórico (aquele registrado no balanço com base no custo) e não existe perspectiva de recuperação desse valor no futuro, a companhia é obrigada a fazer um ajuste (”impairment”, no jargão do meio contábil), que leva à perda.
Foi o que aconteceu com uma das usinas geradoras de energia da Cesp, Porto Primavera. E o ajuste foi tão grande que consumiu todo o lucro que a empresa teve com sua atividade no ano passado. Porto Primavera tinha valor contábil de R$ 13,38 bilhões e a diferença em relação à reavaliação foi de R$ 2,47 bilhões.
O grande problema é que Porto Primavera, que representa 20% da capacidade geradora instalada da Cesp, custou caríssimo para ser construída, o que se refletiu no seu valor bilionário, muito superior a todas as demais usinas da empresa. “Enquanto uma usina leva em média sete anos para ser construída, Porto Primavera levou 22 anos. Essa é a questão crucial”, disse Dilma Pena, secretária de Saneamento e Energia de São Paulo. “A demora acarretou elevadas despesas financeiras e alto custo fixo”, completou Guilherme Toledo, presidente da Cesp. A usina começou a ser construída em 1978 e só foi concluída em 2001. Sua primeira concessão expirou em 2008 e foi renovada até 2028, quando não será mais passível de prorrogação, pelas regras atuais vigentes.
Para se ter uma ideia do quanto Porto Primavera custou caro, o valor registrado de todas as usinas da Cesp soma R$ 17 bilhões, dos quais ela responde pelos R$ 13,38 bilhões.
Embora tal ajuste não tenha representado uma saída de caixa imediata para a empresa, ao longo do tempo essa perda se materializará. Se a usina for vendida, por exemplo. Ou quando expirar a concessão para sua operação e o governo federal retomá-la.
Segundo Toledo, pelas regras contábeis antigas, a Cesp teria registrado um lucro de R$ 115 milhões no ano passado, mesmo contando o efeito negativo de R$ 664 milhões que a desvalorização cambial teve sobre a dívida em dólar.
“A nova regra não permite que a empresa faça um ajuste positivo quando o valor econômico supera o contábil. Se isso fosse possível, o efeito das outras usinas compensaria essa perda. O ajuste é só para baixo”, disse Toledo.
Além de afetar o resultado, o ajuste do valor de Porto Primavera derrubou o ativo da empresa de R$ 17,32 bilhões para R$ 14,64 bilhões.
Por conta do prejuízo, a empresa não terá dividendos a distribuir agora. Mas governo e companhia resolveram tomar uma medida para não comprometer os dividendos de 2009. A empresa usará parte de sua reserva de capital para zerar a conta de prejuízos acumulados, liberando-a a pagar dividendos e juros sobre capital próprio relativos a esse ano. Atualmente, a Cesp tem reserva de capital de R$ 4,35 bilhões.
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