Etanol de milho

Levedura desenvolvida na Unicamp pode tornar a produção de etanol de milho mais eficiente

Com uso de bioinformática, pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) encontraram enzimas para desenvolver nova levedura com potencial de aumentar a produção de etanol usando a mesma quantidade de milho.

Redação TN Petróleo/Assessoria Unicamp
01/09/2026 16:22
Levedura desenvolvida na Unicamp pode tornar a produção de etanol de milho mais eficiente Imagem: Pedro Amatuzzi – Inova Unicamp Visualizações: 745

A produção de etanol de milho é um fenômeno recente no Brasil, mas essa indústria já responde por cerca de 30% da produção de etanol do país, que é um dos maiores produtores mundiais do biocombustível. Para acompanhar esse crescimento acelerado, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma levedura geneticamente modificada capaz de aumentar a eficiência da fermentação do milho.

A invenção foi desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Genômica e bioEnergia do Instituto de Biologia (IB) da Universidade, e foi coordenada por Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, docente do IB. A tecnologia foi protegida e licenciada para a empresa-filha da Unicamp, BIOINFOOD, por meio de estratégia da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), com interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).
 

O desafio da fermentação para etanol de milho
O etanol de milho surgiu como alternativa complementar ao etanol de cana-de-açúcar, uma vez que o milho oferece vantagens logísticas importantes. Diferentemente da cana, que precisa ser processada em até 48 horas após o corte, o grão de milho pode ser armazenado em silos por meses sem perder qualidade. Essa característica permite que produtores aproveitem a entressafra da soja para cultivar milho, o que favorece a rotação de culturas e reduz o impacto ambiental. Além disso, a cadeia produtiva do milho gera subprodutos de alto valor, como óleo e ração animal, o que torna a biorrefinaria do milho ainda mais atrativa economicamente.

"O custo do etanol de milho é muito inferior ao custo do etanol de cana, e muito menos complexo de fazer, porque eles não têm a parte agrícola. Após ser colhido, o milho pode ser armazenado, coisa que não é possível com a cana", enfatiza Pereira.

Apesar das vantagens, o processo de fermentação do milho enfrenta um desafio técnico específico. A levedura tradicionalmente usada na produção de etanol converte facilmente o açúcar da cana em etanol. Porém, o milho não contém esse mesmo tipo de açúcar. Seu principal componente é o amido, uma longa cadeia de moléculas de glicose que a levedura não consegue processar diretamente.

Para resolver isso, é preciso quebrar o amido em moléculas menores antes da fermentação, em um processo que usa duas enzimas chamadas amilases. A primeira, a alfa-amilase, atua em alta temperatura, geralmente acima de 90 graus Celsius, e fragmenta o amido em cadeias médias. A segunda, a glucoamilase, atua durante a fermentação e finaliza a quebra, transformando essas cadeias em moléculas de glicose que a levedura consegue fermentar.

O problema é que a alfa-amilase tradicional só funciona em alta temperatura, incompatível com a fase de fermentação, que ocorre por volta de 30 graus. Por isso, ela precisa ser adicionada antes, em uma etapa separada, o que encarece o processo. Além disso, mesmo com essa etapa prévia, uma parte do amido, estimada em cerca de dez por cento, não é totalmente quebrada e acaba descartada durante a fermentação, reduzindo o rendimento final de etanol.
 

Encontrando a solução com ajuda computacional
A tecnologia desenvolvida na Unicamp atua como uma solução justamente para esse gargalo. Usando ferramentas de bioinformática e análise computacional de grandes bancos de dados genômicos, a equipe procurou enzimas ainda não usadas em leveduras industriais. O critério mais desafiador foi encontrar uma alfa-amilase capaz de funcionar em baixa temperatura, próxima à da fermentação, algo raro entre as enzimas conhecidas, já que a quase totalidade delas só funciona em altas temperaturas.

"Foi um esforço grande de procurar, nos milhões de dados públicos de proteínas que existem, de todos os organismos sequenciados, uma alfa-amilase que atua em baixa temperatura. 99,9% das alfa-amilases só funcionam a 80 graus", explica Marcelo Falsarella Carazzolle, um dos pesquisadores responsáveis pela tecnologia.

Após identificar as enzimas promissoras, a equipe inseriu os genes correspondentes em uma levedura industrial e criou uma linhagem capaz de produzir sozinha tanto a nova alfa-amilase quanto uma nova glucoamilase, sem depender da adição externa dessas enzimas durante o processo. Em testes de bancada, comparando a nova levedura com uma linhagem convencional, os pesquisadores verificaram que a nova cepa dispensa completamente a adição de glucoamilase externa e ainda consegue quebrar parte do amido residual que normalmente se perde no processo tradicional.

Essa dupla capacidade representa uma vantagem direta para a indústria, com potencial de aumentar a produção de etanol usando a mesma quantidade de milho, além de reduzir custos com a compra de enzimas comerciais.
 

Licenciamento e potencial de mercado
Todo o trabalho de identificação das enzimas foi realizado em pouco mais de dois anos, um prazo relativamente curto que se tornou possível graças à velocidade de reprodução dos microrganismos usados nos experimentos. Embora recentes, os resultados obtidos na pesquisa já demonstraram potencial suficiente para atrair o interesse do mercado.

Atualmente, a invenção está licenciada para a empresa-filha da Unicamp, BIOINFOOD, que valida a tecnologia em escalas maiores e ajuda os pesquisadores a acessar amido hidrolisado proveniente de processos industriais reais, algo que não era possível reproduzir em condições de bancada.

Segundo os pesquisadores, o objetivo dessa nova etapa é confirmar em escala industrial os ganhos observados em laboratório, principalmente a redução do amido não aproveitado no processo convencional. Se confirmados, esses resultados podem tornar a levedura um produto comercial relevante para toda a cadeia de produção de etanol de milho no Brasil.

"Essa é uma tecnologia de altíssimo nível científico. É nosso papel transformá-la em um produto comercial relevante, com todo o rigor de validação que a escala industrial exige", comenta Gleidson Teixeira, Co-fundador, Diretor Científico & Comercial na BIOINFOOD.
 

Sobre a Inova Unicamp - A Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Inova Unicamp) é o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Unicamp e atende a todos os campi. A Inova apoia a comunidade na proteção da propriedade intelectual da Unicamp, na transferência de tecnologia, na consolidação de acordos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre a Unicamp e o setor empresarial. Ela também é responsável pela gestão do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp e da sua Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp), além de fomentar a comunicação e a cultura de empreendedorismo e inovação com programas de relacionamento institucional e capacitações.
 

Prêmio Inventores 2026
Em sua 19ª edição, o Prêmio Inventores da Unicamp, organizado pela Inova Unicamp, reconhece e valoriza os inventores que se destacaram na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.
 

Inventores Premiados
Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, Fellipe da Silveira Bezerra de Mello, Marcelo Falsarella Carazzolle, Beatriz de Oliveira Vargas e Lara Isensee Saboya de Sousa, Thais Oliveira Secches, Jade Ribeiro dos Santos na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.

Confira a lista completa de todos os premiados no site do Prêmio Inventores da Unicamp.


Programação de homenagens de 2026

Em comemoração ao Prêmio Inventores 2026, a Inova Unicamp organizou uma série de homenagens. Entre elas, estão reportagens destacando casos premiados deste ano, disponíveis para leitura nos sites da Inova Unicamp e do Prêmio Inventores.

O Prêmio Inventores 2026 tem o apoio institucional do Lumina, o Fundo Patrimonial da Unicamp, e o patrocínio de ClarkeModet e FM2S.

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