E&P

País tem novo mapa do petróleo

Jornal do Brasil
03/09/2004 00:00
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Entrevista: Ricardo Beltrão, Coordenador do Bloco I - Exploração e Produção - da Rio Oil & Gas

O sucesso do sexto leilão da ANP, que teve arrecadação recorde, as grandes companhias de petróleo ensaiando um retorno e o aumento da participação das empresas nacionais, mudou de alguma forma o mapa da exploração de petróleo no Brasil. A partir de agora, será preciso definir uma nova estratégia e o melhor momento para uma discussão a respeito acontecerá na Rio Oil & Gas, segundo Ricardo Beltrão, coordenador de Exploração e Produção, um dos quatro temas em que se divide a conferência.


Qual a importância da Rio Oil & Gas para o desenvolvimento da indústria do petróleo, especialmente na área de E&P?

A Rio Oil & Gas vem se consolidando ao longo do tempo como um evento marcante da indústria de petróleo, como é a Offshore Technology Conference (OTC), realizada anualmente nos Estados Unidos. Sua importância cresce tanto do ponto de vista técnico, com as contribuições da conferência, quanto da própria feira. É uma conseqüência da abertura do mercado, que trouxe as grandes companhias para o Brasil. Isto ficou evidente na sexta rodada de licitações da Agência Nacional do Petróleo, que de certo modo surpreendeu o mercado pelo interesse demonstrado. O leilão arrecadou R$ 665 milhões e as empresas se comprometeram a investir R$ 2 bilhões em seis anos. Também se percebe uma presença mais marcante de empresas nacionais, que têm conseguido nichos de mercado e oportunidades adequadas a seu tamanho. São questões importantes para a indústria e a Rio Oil & Gas é um excelente momento para discuti-las.

Quais os principais temas a serem discutidos na área de E&P?

Um dos painéis vai ser justamente uma avaliação da sexta rodada. Na montagem do Congresso, a proposta foi considerada como de risco, pois a licitação poderia ser um fracasso. Felizmente, o sucesso do leilão abre perspectivas e reflexões sobre a estratégia futura. Há um redesenho do mapa exploratório. A sexta rodada trouxe mudança, principalmente com relação ao posicionamento das grandes majors. Quando houve a abertura do mercado brasileiro, havia a expectativa de existência de campos com 500 milhões de barris de reservas, mas só a Petrobras fez descobertas dessa magnitude. As grandes companhias estrangeiras, que se depararam com um sistema geológico desconhecido, ainda se surpreenderam com a queda na qualidade do óleo, e algumas delas resolveram deixar o país. Seu retorno agora se relaciona à colocação na sexta rodada de um lote de blocos considerados de alta prospectividade, porque englobam áreas dos chamados ``blocos azuis``, outorgados à Petrobras antes das licitações públicas de contratos de concessão. Por sua maior experiência geológica na exploração das bacias brasileiras, é natural que a Petrobras permaneça na frente na corrida para novas descobertas, mas há oportunidades para todas no país.

Além dessa avaliação do leilão da ANP, quais as discussões mais esperadas?

As oportunidades criadas pelas descobertas na Bacia de Santos e Bacia do Espírito Santo, as duas novas vedetes do país. Ainda estamos iniciando a exploração das duas províncias, onde acreditamos haver grandes reservas de óleo leve, óleo pesado e gás. Temos ainda algum trabalho para entender essas duas bacias, que são diferentes da Bacia de Campos. A Petrobras tem conhecimento acumulado do sistema petrolífero, daí as grandes majors estarem se associando à empresa para se beneficiar do conhecimento já existente aqui.

Qual o grande desafio tecnológico dos próximos anos?

O grande desafio é o óleo. O Brasil produz hoje petróleo pesado, na faixa de 19 a 20 graus API, mas já temos reservas provadas com 17 graus para baixo, até 13 ou 14. Trabalhamos com a expectativa de 6 a 7 bilhões de barris em reservas potenciais de óleos ultrapesados, que trazem dois grandes desafios. O primeiro deles é a necessidade de tecnologia para conseguir produzir: o fluxo é mais complicado, a temperatura precisa ser gerenciada com muito mais cuidado, há problemas básicos de entupimento, escoamento...Há a questão do processamento, pois nossas refinarias foram pensadas para óleo leve importado e só agora estão sendo adaptadas. Apesar de exigir investimentos cada vez maiores, o óleo pesado tem preço menor no mercado, o que nos coloca também diante de desafio de garantir a rentabilidade da produção. O conjunto desses fatores torna a questão de produzir com rentabilidade muito desafiadora.
Outro grande desafio diz respeito ao gás, que é uma novidade. Tínhamos a produção do gás associado no E&P, e agora vamos ter de produzir offshore e exigirá toda uma gama de tecnologia para viabilizar o negócio. Ao contrário do petróleo, que é uma commodity, o gás permeia toda a cadeia de produção, e tem que ser equacionado de uma forma integrada. A Rio Oil & Gas será um bom momento para isso e seu tema principal - Gás natural: a energia do século XXI - não poderia ser mais pertinente.
O terceiro grande desafio, que está na ordem do dia, é como a nossa indústria vai responder ao desenvolvimento da produção de petróleo e gás, principalmente diante da diretriz do governo de se elevar ao máximo o conteúdo nacional nas encomendas. As empresas brasileiras vão ter de se preparar, buscar capacitação e competitividade. A construção naval, por exemplo, hoje está começando a ser competitiva - basta ver as encomendas que deixaram os estaleiros cheios. Mas as empresas vão ter de investir e desenvolver produtos e serviços que ainda não oferecem. Por esta razão é incluímos um painel específico sobre capacitação na Rio Oil & Gas.

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