Meio ambiente

Vazamento espalha manchas de óleo no litoral de Madre de Deus (BA)

Correio da Bahia
12/08/2005 00:00
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Substância denominada Banker MF 380 vazou de um furo de 3 milímetros de diâmetro na linha de transmissão

Por terra, nem sinal do vazamento de óleo combustível ocorrido às 22h10 de quarta-feira, no Terminal de Madre de Deus (Temadre). Porém, no litoral que margeia o município, distante 62km de Salvador, manchas escuras que bóiam sobre as águas denunciam mais um acidente ambiental. "A mancha de óleo no mar era imensa. Várias embarcações puxaram barreira a noite toda, mas ainda tem muito óleo no mar", conta um marinheiro e pescador que prefere não ser identificado.
Lembrando da extensão da mancha que presenciou na primeira travessia da Ilha de Bom Jesus para Madre de Deus, o homem simples do mar já contabiliza os prejuízos. "Tinha pintado minha embarcação há pouco tempo. Agora está assim, toda suja de óleo e vai ficar por isso mesmo", reclama. Ele, que é também pescador cadastrado na colônia Z-3 de Bom Jesus, sabe que não tarda testemunhar de novo a mortandade de peixes. "Daqui a dois dias, começam a boiar. É por isso que o pescado aqui só está diminuindo".
Mesmo sem ter visto a proporção do derramamento, a marisqueira Marinalva Pereira, que tira do mar o sustento dos dois filhos, demonstra também indignação. "Já presenciei vários derramamentos e sempre quem sai perdendo somos nós", protesta, revelando também preocupação com a morte não só dos peixes, mas de outras espécies marítimas. "Siri, ostra, sururu. Morre tudo. Mesmo os que sobrevivem e dá para a gente pegar, ficam com tanto cheiro e gosto de óleo que dá medo de comer e vender".
Motivo de preocupação para marinheiros e pescadores, o derrame é visto com naturalidade por alguns moradores. "Já está tudo controlado. A maré baixa ajudou a escoar o óleo para fora da cidade", avaliou o desempregado Jadson Henrique, que não hesitou em curtir a praia com a mulher e duas filhas pequenas. "Vi uma mancha no mar, mas era pequena. Aqui, já teve derramamento bem maior", complementa a dona de casa Milena Farias, 31 anos.
Gerente minimiza incidente - Contrariando as denúncias de lideranças do município que consideram que o vazamento de grande proporção pode atingir não só a costa de Madre de Deus como também as ilhas de Paramana e de Bom Jesus, o gerente de terminal da Transpetro, subsidiária integral da Petrobras em Madre de Deus, Maurício Pimentel, negou a gravidade do incidente. "O derramamento foi de pequena proporção, tanto que estamos operando com recursos próprios. Não foi necessário solicitar ajuda externa", explica.
Oficialmente, a Transpetro comunicou aos órgãos ambientais (ANP, Capitania dos Portos e CRA) a ocorrência de um vazamento de 200 litros de óleo combustível. Utilizado para abastecimento dos navios, o produto, cujo nome técnico é banker MF 380 vazou de um furo de 3mm de diâmetro na linha de transmissão que tem mais de 300m. Segundo o gerente da Transpetro, o derramamento durou menos de 20 minutos. "O pessoal detectou de imediato e suspendeu o bombeio", conta, acrescentando que as barreiras fixas, que cercam permanentemente de acordo como programa de prevenção e segurança da empresa, contiveram 80% do produto.
Ainda assim, a operação de limpeza e coleta do óleo que se espalhou em função da correnteza mobilizou uma equipe de 50 profissionais. Além de um helicóptero e das embarcações da Petrobras, 12 barcos da comunidade foram recrutados a auxiliar os trabalhos da equipe de contingência. A previsão era de que a limpeza fosse concluída ainda ontem. "Acredito que o óleo não chegará à costa", conclui o gerente da Transpetro.
Na posição de testemunha dos prejuízos ambientais vivenciados por Madre de Deus, ambientalistas que atuam no município duvidam dos dados oficiais e reclamam da inoperância das autoridades que deveriam fiscalizar e atuar em prol da preservação do meio ambiente. Doze horas depois do ocorrido, atendentes do Telefone Verde (0800711050) diziam não ter conhecimento do derrame que era o assunto do dia em qualquer lugar da cidade. "A empresa sempre tem interesse de mascarar as coisas. O complicado é que não temos equipamentos nem pessoal técnico que nos permita medir e avaliar a extensão do derramamento", comenta Antônio Coelho, presidente da ONG Curupeba.
Mostrando fotos de manguezais da região tiradas esta semana, ele comenta que até hoje Madre de Deus sofre os vestígios de acidentes ecológicos passados. "Essas manchas são vestígios de petróleo do derrame de 1992", argumenta, defendendo a aprovação de um projeto que analise a condição dos mangues da região. "As folhas parecem doentes. É preciso analisar se esta má-formação está mesmo relacionada com a atividade petrolífera".
Plano de Contingência -  Apesar das críticas, a Petrobras entrega na próxima semana, dia 18 de agosto, ao Conselho Municipal de Madre de Deus, o Plano de Contigência do Município. O documento, com mais de 500 páginas e que segue recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU), é uma reivindicação de décadas para tornar instruídos os 14,5 mil moradores da ilha a como agir com segurança no caso de um eventual acidente nas instalações industriais do município. Além de constarem no plano mapas, rotas de fuga, locais de abrigo, endereço de pessoas com dificuldade de locomoção, o plano sugere à Defesa Civil de Madre de Deus a continuidade de treinamentos e instruções junto à população.

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