Opinião

A questão energética vai bem além da falta de chuva

Falhas na política para o setor tornam o país vulnerável.

Valor Econômico
05/02/2014 10:54
Visualizações: 973

 

O governo atribuiu a recente disparada do preço da energia no mercado livre à especulação tradicional de início de ano, que tira proveito da escassez de chuvas e do aumento do consumo alavancado pelas temperaturas extraordinariamente elevadas para obter lucro. Além disso, aposta que as chuvas vão se regularizar nas próximas semanas, recuperando os reservatórios das hidrelétricas.
A realidade não é tão tranquila assim. Enquanto o ministro da Energia, Edison Lobão, nega terminantemente a possibilidade de racionamento de energia, o que teria impacto negativo direto na produção, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, avalia que o sistema passa por uma "grande prova de fogo" devido ao baixo volume de chuvas (Valor, 4/2).
Pelo terceiro verão consecutivo, as chuvas estão abaixo da média histórica. Neste início de ano, chove pouco mais da metade da média. Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste estão com 41,5% da capacidade ocupada, menos do que os 45,5% de fevereiro do ano passado, que já não havia sido um ano generoso em precipitação pluviométrica. Os especialistas só contam com chuvas significativas na última quinzena de fevereiro ou em março.
Para complicar, o calor aumentou o consumo de energia em cerca de 10% na comparação com igual período de 2013. Em todo o ano passado, o consumo cresceu 3,5%, puxado principalmente pelas residências (6,1%) e pelo comércio (5,7%), já que a indústria ficou para trás (0,6%) por causa da produção baixa.
A combinação desses fatores contribuiu para levar o preço da energia ao patamar recorde de R$ 822,83 o MWh na primeira semana deste mês, quase o triplo do valor da primeira semana de janeiro. O recorde anterior havia sido estabelecido em janeiro de 2008, com a marca de R$ 569,59 o MWh.
Mas a culpa pela inquietação na área energética não é só de São Pedro. Falhas na política do governo para o setor tornam o país vulnerável apesar de ser um dos mais ricos em recursos hídricos do mundo. Os frequentes atrasos nas obras de infraestrutura são um dos problemas mais graves. Segundo o próprio governo, estão atrasadas 22 das 25 hidrelétricas e 22 das 35 termelétricas atualmente em construção no país.
Não são exceção projetos grandiosos como as usinas do rio Madeira, em Rondônia, Santo Antonio e Jirau, que gradualmente estão colocando suas turbinas em operação, mas só devem estar funcionando totalmente em dezembro de 2015, com atraso estimado em cerca de oito meses. Até 2018, entram em produção Belo Monte, no Pará, e Angra 3.
De nada adianta, porém, esses projetos estarem prontos se não forem concluídas as linhas de transmissão que vão conectá-los ao Sistema Interligado Nacional (SIN), idealizado para distribuir de modo racional a energia gerada em diferentes partes do país, muitas vezes longe dos centros consumidores. Cerca de 15% do parque eólico brasileiro está ocioso por falta de conexão por linha de transmissão ao SIN.
A alta dos preços já leva algumas empresas eletrointensivas a pensar em reduzir a atividade e vender parte da energia de que dispõem no mercado. Se isso ocorrer, haverá impacto negativo na produção e, portanto, na economia.
A questão energética tem outra vertente também preocupante que é seu reflexo na política fiscal. Desde 2013, o Tesouro arca com os custos extras da geração de energia para que fosse cumprida a promessa de redução das contas de luz em 20%, feita pela presidente Dilma Rousseff em cadeia nacional de rádio e televisão.
Esses custos foram de cerca de R$ 9 bilhões em 2013 e o governo já havia reservado igual quantia para a mesma finalidade no Orçamento deste ano. O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, porém, obriga maior recurso à energia térmica que é mais cara e, por isso, demanda desembolso maior por parte do Tesouro. Especialistas consultados pelo Valor calculam que a conta pode chegar a R$ 18 bilhões.
A alternativa do governo seria repassar o custo ao consumidor com consequente aumento das tarifas. Mas esse caminho é tão inviável politicamente quanto um racionamento, especialmente em um ano de eleições, dado seus impactos no bolso do consumidor e na inflação, que se mantém próxima do teto da meta.

O governo atribuiu a recente disparada do preço da energia no mercado livre à especulação tradicional de início de ano, que tira proveito da escassez de chuvas e do aumento do consumo alavancado pelas temperaturas extraordinariamente elevadas para obter lucro. Além disso, aposta que as chuvas vão se regularizar nas próximas semanas, recuperando os reservatórios das hidrelétricas.

A realidade não é tão tranquila assim. Enquanto o ministro da Energia, Edison Lobão, nega terminantemente a possibilidade de racionamento de energia, o que teria impacto negativo direto na produção, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, avalia que o sistema passa por uma "grande prova de fogo" devido ao baixo volume de chuvas (Valor, 4/2).

Pelo terceiro verão consecutivo, as chuvas estão abaixo da média histórica. Neste início de ano, chove pouco mais da metade da média. Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste estão com 41,5% da capacidade ocupada, menos do que os 45,5% de fevereiro do ano passado, que já não havia sido um ano generoso em precipitação pluviométrica. Os especialistas só contam com chuvas significativas na última quinzena de fevereiro ou em março.

Para complicar, o calor aumentou o consumo de energia em cerca de 10% na comparação com igual período de 2013. Em todo o ano passado, o consumo cresceu 3,5%, puxado principalmente pelas residências (6,1%) e pelo comércio (5,7%), já que a indústria ficou para trás (0,6%) por causa da produção baixa.

A combinação desses fatores contribuiu para levar o preço da energia ao patamar recorde de R$ 822,83 o MWh na primeira semana deste mês, quase o triplo do valor da primeira semana de janeiro. O recorde anterior havia sido estabelecido em janeiro de 2008, com a marca de R$ 569,59 o MWh.

Mas a culpa pela inquietação na área energética não é só de São Pedro. Falhas na política do governo para o setor tornam o país vulnerável apesar de ser um dos mais ricos em recursos hídricos do mundo. Os frequentes atrasos nas obras de infraestrutura são um dos problemas mais graves. Segundo o próprio governo, estão atrasadas 22 das 25 hidrelétricas e 22 das 35 termelétricas atualmente em construção no país.

Não são exceção projetos grandiosos como as usinas do rio Madeira, em Rondônia, Santo Antonio e Jirau, que gradualmente estão colocando suas turbinas em operação, mas só devem estar funcionando totalmente em dezembro de 2015, com atraso estimado em cerca de oito meses. Até 2018, entram em produção Belo Monte, no Pará, e Angra 3.

De nada adianta, porém, esses projetos estarem prontos se não forem concluídas as linhas de transmissão que vão conectá-los ao Sistema Interligado Nacional (SIN), idealizado para distribuir de modo racional a energia gerada em diferentes partes do país, muitas vezes longe dos centros consumidores. Cerca de 15% do parque eólico brasileiro está ocioso por falta de conexão por linha de transmissão ao SIN.

A alta dos preços já leva algumas empresas eletrointensivas a pensar em reduzir a atividade e vender parte da energia de que dispõem no mercado. Se isso ocorrer, haverá impacto negativo na produção e, portanto, na economia.

A questão energética tem outra vertente também preocupante que é seu reflexo na política fiscal. Desde 2013, o Tesouro arca com os custos extras da geração de energia para que fosse cumprida a promessa de redução das contas de luz em 20%, feita pela presidente Dilma Rousseff em cadeia nacional de rádio e televisão.

Esses custos foram de cerca de R$ 9 bilhões em 2013 e o governo já havia reservado igual quantia para a mesma finalidade no Orçamento deste ano. O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, porém, obriga maior recurso à energia térmica que é mais cara e, por isso, demanda desembolso maior por parte do Tesouro. Especialistas consultados pelo Valor calculam que a conta pode chegar a R$ 18 bilhões.

A alternativa do governo seria repassar o custo ao consumidor com consequente aumento das tarifas. Mas esse caminho é tão inviável politicamente quanto um racionamento, especialmente em um ano de eleições, dado seus impactos no bolso do consumidor e na inflação, que se mantém próxima do teto da meta.

Mais Lidas De Hoje
veja Também
ROG.e 2026
Porto do Açu e Perenco Brasil assinam acordo para primei...
25/09/26
Brandend Content
Brasil Aços amplia estoque de tubos de aço carbono NACE...
24/09/26
ROG.e 2026
Lideranças apontam o Brasil como pilar de segurança ener...
24/09/26
ROG.e 2026
Firjan SENAI e Sebrae Rio conectam MPEs a grandes empres...
24/09/26
ROG.e 2026
Estudo da PPSA identifica boas práticas para apoiar deci...
24/09/26
ROG.e 2026
EAS participa da ROG.e 2026
24/09/26
ROG.e 2026
ROG.e 2026 reforça agenda de DE&I no setor de energia co...
24/09/26
ROG.e 2026
Programa Offshore do Futuro deve chegar a Sergipe para f...
24/09/26
ROG.e 2026
Shell Energy Brasil destaca oportunidade de ampliar inte...
24/09/26
PPSA
A parcela de petróleo da União foi de 328 mil barris por...
24/09/26
Apoio Offshore
Afretado pela Petrobras, o PSV Starnav Elektra é batizad...
24/09/26
ROG.e 2026
SONDA aposta em IA e Drones para operações críticas no s...
24/09/26
ROG.e 2026
O papel da Lumina e o impacto da ROG.e 2026 para a indús...
23/09/26
Negócios
Avanço acompanha expansão da cadeia de petróleo e gás e ...
23/09/26
ROG.e 2026
A energia inteligente no poço
23/09/26
ROG.e 2026
Como o profissional de Química impulsiona a inovação e a...
23/09/26
ROG.e 2026
IBP lança caderno de Projetos e Iniciativas de Responsab...
23/09/26
ROG.e 2026
Gigantes do setor e produtores independentes aceleram pr...
22/09/26
PPSA
PPSA publica pré-edital do 1º Leilão de Gás Natural da União
22/09/26
ABPIP
ABPIP terá programação própria de debates durante a ROG....
22/09/26
ROG.e 2026
MODEC debate desafios para um offshore mais eficiente na...
22/09/26
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

25