O plano do premiê Vladimir Putin de transformar a Rússia numa fornecedora global de gás natural está sendo minado pelos atrasos nos projetos da Gazprom. Enquanto isso, a Austrália conquista contratos com a China e cresce fortemente a produção nos EUA.
A Gazprom adiou decisões de investimentos para projetos de gás natural liquefeito (GNL), como o campo ártico de Shtokman. A companhia gastou mais de seis anos em ponderações sobre uma expansão para o projeto Sakha lin-2, de US$ 22 bilhões, primeira planta de GNL da Rússia, que entrou em operação no ano passado.
Enquanto a Rússia adia, Exxon Mobil, Chevron e fornecedores concorrentes amarram acordos de longo prazo com a PetroChina a partir de projetos de GNL na Austrália e no Sudeste Asiático. A Royal Dutch Shell, parceira da Gazprom em Sakhalin, procura expandir áreas de desenvolvimento para conquistar uma fatia dos mercados na China e na Índia. É possível que já seja tarde demais, diz Mikhail Korchemkin, da East European Gas Analysis.
"O mercado de GNL está se desenvolvendo rápido demais para a Gazprom poder recuperar terreno", disse Korchemkin, sócio-diretor da consultoria. "Seria preferível que a Gazprom se preocupasse em manter sua participação no mercado europeu".
Enquanto a Gazprom, maior produtora de gás do mundo, fornece aproximadamente um quarto das necessidades de gás da Europa, ela perdeu participação de mercado para Noruega e Qatar, em meio ao crescimento de 22% nos embarques de GNL à Europa no ano passado.
As ações da Gazprom caíram 9% este ano, na comparação com um declínio de 8% no Índice Bloomberg de Gás da Europa. De 18 analistas que monitoram a Gazprom, 16 a classificam como "comprar".
A Rússia tem como alvo 25% do mercado mundial de GNL, desenvolvendo principalmente campos de gás em Sakhalin-2, Shtokman e na península Yamal, na Sibéria. Em setembro, Putin organizou um encontro com dirigentes de empresas de energia globais para atrair investimentos para Yamal, que significa "fim do mundo" no idioma local dos nenets.
"Não existe nenhuma possibilidade de a Gazprom obter 25% do mercado GNL do mundo". disse Keith Bainbridge, sócio responsável pelo segmento de gás na RS Platou em Londres, banco de investimentos e e corretora. "O GNL agora é um negócio global".
A Gazprom com sede em Moscou planeja participar em projetos de GNL no Oriente Médio, África e América Latina, disse a companhia, em resposta por e-mail a perguntas da Bloomberg News, sem fornecer detalhes adicionais.
A companhia precisará competir por clientes com o projeto Gorgon LNG, de US$ 37 bilhões, na Austrália, que está sendo desenvolvido pela Chevron com a Exxon e a Shell. A Petrochina acertou em agosto a compra de 2,25 milhões de toneladas anuais a partir de 2014, num contrato que vale aproximadamente 50 bilhões de dólares australianos (US$ 44 bilhões).
Em Papua-Nova Guiné, a Exxon lidera um projeto de US$ 15 bilhões, uma dentre mais de uma dezena na região que têm compradores asiáticos como alvo.
"A Gazprom tem ambições, mas a concorrência e a dinâmica da demanda exercem um impacto substancial sobre os planos de presença nos EUA, participação do mercado europeu e vendas de GNL", disse Valery Nesterov, analista do Troika Dialog, de Moscou. "Será muito difícil ganhar o mercado".
Os atrasos no GNL poderão custar à Gazprom até US$ 12 bilhões ao ano em vendas não realizadas, estima Nesterov.
O comércio global em GNL vem crescendo à medida que os países mudam para combustíveis mais limpos, em substituição ao carvão e ao petróleo. A tecnologia desenvolvida há aproximadamente 40 anos permitiu o resfriamento do gás natural a um líquido para transporte por via marítima, tornando acessíveis mercados em todo o mundo que não podiam ser alcançados por gasodutos.
O transporte marítimo mundial de GNL aumentou 6%, para 182 milhões de toneladas em 2009, segundo o Grupo Internacional de Importadores de GNL.
O Japão comprou 35% da oferta, e a Coreia do Sul, 14%, disse o grupo. A China comprou 3% do total, mas as aquisições dispararam, crescendo 70%. A capacidade de produção deverá crescer em mais de 50% até 2013, estima a Agência Internacional de Energia.
As exportações de GNL a partir da Austrália cresceram 19% no ano passado, para 18 milhões de toneladas. O Qatar embarcou 37 milhões de toneladas, a Malásia, 23 milhões de toneladas, e a Indonésia, 19 milhões de toneladas.
A Rússia ingressou no mercado de GNL com o Sakhalin-2, que tem capacidade de 9,6 milhões de toneladas ao ano. O país exportou 5 milhões de toneladas de GNL no ano passado, segundo com o grupo de importadores.
O executivo-chefe da Gazprom, Alexei Miller, havia dito em fevereiro de 2009 que a companhia gastaria US$ 45 bilhões para elevar a produção de GNL para aproximadamente 90 milhões de toneladas ao ano até 2030.
Além da concorrência enfrentada pela Gazprom, o aumento da produção de GNL e a oferta de gás de xisto betuminoso dos EUA, extraído a partir de rocha, deprimiram os preços globais do gás. As cotações referenciais do gás dos EUA despencaram, em queda de 14% neste ano, na esteira de baixas ocorridas nos dois anos anteriores.
Em contraponto ao cenário de preços em queda e da maior capacidade despontando, a Gazprom argumenta que haverá demanda para o seu GNL no mercado.
"O Qatar tem uma moratória para a construção de capacidade adicional de GNL até 2014, enquanto os custos de produção em projetos principalmente na plataforma marítima na Austrália são bastante elevados", diz a empresa, em resposta a perguntas enviadas por correio eletrônico. Novos importadores de GNL, como Cingapura e o Oriente Médio, significarão que haverá "espaço suficiente para todos."