Tecnologia

Cientistas propõem tecnologia feita com isopor para liberação controlada de fertilizantes na agricultura

Isopor, amido, óleo da casca da laranja, enxofre e colágeno. Essa é a "receita" proposta em uma pesquisa de mestrado defendida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, em parceria com a Embrapa Instrumentação, para criar um novo revestimento nanométrico que poderá promover a liberação controlada de fertilizantes na agricultura. Mais sustentável e barata que os materiais utilizados hoje em dia, a tecnologia poderá contribuir para reduzir os impactos ambientais dos produtos empregados atualmente, além de dar um destino mais nobre ao isopor, material de difícil descarte e que leva anos para se degradar na natureza.


31/10/2022 10:08
Cientistas propõem tecnologia feita com isopor para liberação controlada de fertilizantes na agricultura Visualizações: 2817
O professor Wagner Luiz Polito do IQSC, orientador do trabalho, comentou sobre a importância do novo material: "A principal vantagem da proposta é aproveitar uma matéria-prima que gera impacto ambiental e que iria para o lixo. O isopor é uma espuma muito leve e ocupa bastante espaço, levando um século para ser dissolvido. Mas, na nossa pesquisa, usamos um solvente verde (óleo da casca da laranja) para diluí-lo, permitindo que ele seja aproveitado em um revestimento para nutrientes, como se fosse uma capa muito fina que envolve o fertilizante e não prejudica a natureza, pois se trata de uma fração muito pequena do material que não gera impactos negativos", explica.

Segundo o docente, outro benefício da tecnologia proposta é o baixo custo em comparação com os revestimentos comerciais disponíveis atualmente, que são feitos a partir de derivados do petróleo e não são indicados para utilização em países tropicais, onde há chuva em abundância, por se degradarem com mais facilidade: "Vamos supor que a pessoa tenha uma pequena horta, ela conseguiria comprar esse novo revestimento com isopor por um preço muito menor porque estamos falando de um produto que seria jogado fora, então é uma forma inteligente de você reciclá-lo. A estimativa é de que o nosso revestimento seja cerca de 1000% mais barato que os tradicionais, além de não gerar o impacto ambiental da exploração de matérias-primas vindas do petróleo", completa o professor, que orientou Diego Fernandes da Cruz, autor da dissertação.

A liberação controlada de fertilizantes com a utilização de revestimentos é necessária para atender à fisiologia da planta, que demanda quantidades constantes e específicas de nutrientes de acordo com cada fase de seu ciclo de vida. Os fertilizantes mais empregados para o desenvolvimento e sobrevivência de qualquer planta ou vegetal são, basicamente,  potássio, enxofre, nitrogênio e fósforo. No entanto, revestir um insumo para uso na agricultura não é simplesmente aplicar um filme sobre uma superfície, o material precisa ter a função de controlar a liberação de nutrientes de modo que eles sejam dispostos no solo de forma lenta e uniforme.

"Não basta criar um revestimento só para proteger a planta, ele precisa ser "ativo", gerar reações químicas que contribuam para a sua degradação uniforme. Além disso, seu  aproveitamento pela planta deve ocorrer respeitando os aspectos de equilíbrio nutricional e de fisiologia do reino vegetal. Essa "capa" deve se degradar aos poucos, tanto por ação de microorganismos como por reações químicas entre o nutriente e o revestimento. Esse processo permite que o fertilizante "vaze" de maneira controlada", explica Polito.  

Nos últimos anos, o aumento da utilização de insumos como fertilizantes minerais foi alavancada pela necessidade de atender a crescente de alimentos e de outras matérias-primas, como algodão e madeira. Esses nutrientes possibilitam um grande aumento na produtividade, mesmo em uma restrita área útil de plantação. Além da utilização de insumos, o aumento da produtividade também se deve ao uso correto desses fertilizantes e ao desenvolvimento de novos materiais para revestimentos, auxiliando no processo de liberação lenta ou controlada. Porém, os fertilizantes revestidos são mais caros e geram resistência por parte dos  agricultores, evidenciando a importância da pesquisa e criação de novos revestimentos com baixo custo que atendam as demandas de produção com sustentabilidade econômica.

Testes - A nova tecnologia proposta foi testada para revestir amostras de potássio, nutriente responsável pelo crescimento saudável do vegetal. Esse fertilizante auxilia no desenvolvimento de plantas e raízes e na retenção de água, aumentando a resistência em períodos de seca. Além disso, sem a sua presença, a planta fica mais suscetível a pragas e doenças. "O potássio é importante para praticamente todas as produções porque ele ajuda a realizar a formação de algumas proteínas que protegem as plantas e auxiliam seu sistema metabólico", complementa Polito.  

Durante a pesquisa, grãos de potássio revestidos com o material feito com o uso de isopor foram colocados dentro de recipientes com água. O objetivo foi avaliar se o material era capaz de reter o nutriente e estudar o comportamento do revestimento ao ser submerso. Os resultados mostraram que o filme obtido apresentou alta maleabilidade, plasticidade e forte resistência à água.

Quanto à liberação controlada do potássio, os dados também foram positivos: após 72 horas imerso, pelo menos 25% do fertilizante ainda estava retido junto ao revestimento e não havia sido liberado, comprovando a viabilidade da nova tecnologia para a função. Também foi constatado que o grão de potássio com o revestimento levou muito mais tempo para ser liberado totalmente em comparação com o nutriente não revestido. Agora, os próximos passos do estudo envolvem a realização de testes com outros tipos de nutrientes e a avaliação de desempenho do novo revestimento diretamente no solo. A expectativa é de que em até dois anos a nova tecnologia já esteja disponível no mercado.

O trabalho realizado por Diego, que teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), não foi o primeiro da área com participação da Embrapa Instrumentação. A parceria com o IQSC existe desde 2016, por meio da ligação do professor Polito com o pesquisador Cauê Ribeiro, e já rendeu até um prêmio internacional, o Scholar, conferido pelo Instituto Internacional Nutrição de Plantas (INPI), dos Estados Unidos, ao então doutorando do IQSC Ricardo Bortolettos. A honraria foi entregue pelo trabalho "Desenvolvimento e avaliação de sistemas poliméricos a base de óleos vegetais para a liberação controlada de ureia no campo".

Diversos artigos científicos que são fruto da parceria também já foram publicados. Confira, abaixo, a relação completa dos trabalhos:

Preparation of Polyurethane Monolithic Resins and Modification with a Condensed Tannin-Yielding Self-Healing Property
 
Polyurethane nanocomposites can increase the release control in granulated fertilizers by controlling nutrient diffusion

Biodegradable oil-based polymeric coatings on urea fertilizer: N release kinetic transformations of urea in soil

Synergy between castor oil polyurethane/starch polymer coating and local acidification by A. niger for increasing the efficiency of nitrogen fertilization using urea granules

Oil-based polyurethane-coated urea reduces nitrous oxide emissions in a corn field in a Maryland loamy sand soil



Fonte: Redação com Henrique Fontes, da Assessoria de Comunicação do IQSC/USP
 
 
Legenda e crédito da foto 
Esquema ilustra a liberação controlada de nutrientes a partir de um revestimento. Foto: Wagner Politov
Mais Lidas De Hoje
veja Também
Meio ambiente
Brasil aparece entre maiores emissores de metano em ater...
30/04/26
Combustíveis
E32 reforça estratégia consistente do Brasil em seguranç...
27/04/26
Royalties
Hidrelétricas da ENGIE Brasil repassam R$ 49,8 milhões e...
23/04/26
Saúde e Bem-estar
Abril azul: Conheça 5 direitos de pessoas com Transtorno...
19/04/26
Sustentabilidade
ENGIE Brasil divulga Relatório de Sustentabilidade 2025
17/04/26
Cana Summit
Abertura do Cana Summit 2026: autoridades e especialista...
15/04/26
Combustíveis
Etanol gera economia superior a R$ 2,5 bilhões em março ...
14/04/26
Cana Summit
Diesel sob pressão no campo acelera corrida por novas fo...
14/04/26
Segurança Cibernética
Fraudes em infraestruturas críticas acendem alerta globa...
13/04/26
Energia Renovável
Crise energética global impulsiona protagonismo do Brasi...
09/04/26
Evento
Fórum nacional debate expansão do biogás e do biometano ...
08/04/26
Cana Summit
Juros elevados e crédito mais restrito colocam fluxo de ...
07/04/26
Combustíveis
ETANOL/CEPEA: Preço médio da safra 25/26 supera o da tem...
07/04/26
Hidrogênio Verde
Estudo no RCGI mapeia regiões com maior potencial para p...
06/04/26
Comunicação e Cultura
Livro reunirá 55 autores para contar a história do movim...
02/04/26
Etanol
Produtor de cana avança com novas estratégias para reduz...
31/03/26
IBEM26
Encontro internacional de energia vai abrir calendário m...
30/03/26
Energia Elétrica
USP desenvolve modelos para reduzir curtailment e amplia...
29/03/26
IBEM26
Bahia apresenta potencial da bioenergia e reforça protag...
27/03/26
IBEM26
Goldwind avança na Bahia com fábrica em Camaçari e proje...
27/03/26
IBEM26
Jerônimo Rodrigues destaca potencial da Bahia na transiç...
26/03/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

23