Aviação

Fórum IBP SAF reúne setor privado e agentes públicos para discutir o mercado de combustível sustentável de aviação no Brasil

Redação TN Petróleo/Assessoria IBP
18/06/2026 16:17
Fórum IBP SAF reúne setor privado e agentes públicos para discutir o mercado de combustível sustentável de aviação no Brasil Imagem: Divulgação Visualizações: 67

O Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) reuniu autoridades do setor público e privado no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (17/06), durante o "Fórum IBP - SAF Brasil 2026: da Regulação à Operação" para debater o andamento do mercado do combustível sustentável de aviação, que aguarda para as próximas semanas, a publicação do decreto federal que regulamenta o mandato do combustível no país.

Empresas produtoras, distribuidoras, governo federal, agências reguladoras, operadores logísticos e aeroportuários, certificadores, companhias aéreas e entidades setoriais mostraram suas expectativas e ações planejadas para a entrada comercial do SAF no mercado brasileiro a partir de 2027, quando o setor terá de cumprir novas regulamentações.

Na abertura do Fórum, o diretor executivo de Downstream do IBP, Carlos Orlando, destacou o papel estratégico do SAF na agenda de descarbonização e os entraves que ainda precisam ser enfrentados para o seu avanço. "Vivemos um momento singular. Por um lado, buscam-se soluções para garantir segurança energética e redução de emissões. Nesse contexto, a aviação ocupa posição estratégica. Por outro lado, tem de manter competitividade, conectividade e acessibilidade", afirmou. Segundo Orlando, a expansão do mercado de SAF depende, entre outros vetores, de ganho de escala e de previsibilidade regulatória. O ganho de escala é um grande desafio, diante da demanda atual e futura, que se apresenta. Outros desafios são: a questão de preços, já que o SAF apresenta custos de produção maiores do que o JET convencional; e a manutenção da fundamental estabilidade regulatória para a atração de investimentos. Sem a superação desses desafios, o produto não escala. 

Pelo governo federal, Lorena Mendes de Souza, coordenadora-geral de biodiesel e outros biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), mostrou otimismo com o desenvolvimento do novo mercado. "Estamos entrando em um novo estágio na agenda SAF. Antes víamos o SAF como uma promessa, mas esse cenário está mudando. Além disso, o Brasil está seguindo um caminho inteligente com métricas de redução de emissões", afirmou, elogiando as políticas para o mercado doméstico e modelo adotado no país.

A importância de estruturar um mercado voltado também para a exportação foi enfatizada por Jorge Carmello, consultor do IBP. "O mercado brasileiro ainda é incipiente, mas o potencial global é enorme. Devemos olhar também para o mercado externo", destacando que o Brasil atrai a atenção do mundo graças ao grande volume de biomassa disponível.

Do lado da regulação, Priscilla Vieira, da gerência de meio ambiente e transição energética da ANAC, explicou os desdobramentos operacionais do futuro decreto. "O decreto passou por consulta pública e vai definir obrigações e direitos de todos os atores, os meios de cumprimento e os meios alternativos ". Vieira destacou ainda a adoção do sistema Book and Claim (reserva e reivindicação) que permitirá às companhias aéreas e empresas comprarem benefícios e créditos de carbono do SAF.

Já Maria Auxiliadora Nobre, superintendente adjunta da área de Meio Ambiente e Tecnologia da ANP, frisou as vantagens competitivas do país. "Vemos o Brasil como uma potência no segmento SAF, temos expertise na produção de biocombustíveis, temos matéria-prima em abundância em biomassa e equipes familiarizadas no desenvolvimento de energias renováveis", resumiu. Maria Auxiliadora ressaltou que o processo de implementação do SAF ocorre de forma coordenada com a ANAC, mostrando integração entre os diversos segmentos.
 

Visão do setor produtivo
A Petrobras, que responde por 31% da oferta de energia do país, já se movimenta para garantir sua fatia nesse novo mercado e cumprir os futuros mandatos a partir do decreto federal. "Temos já coprocessamento em produção, plantas dedicadas à tecnologia HEFA integradas ao parque de refino para produção de SAF (via SBC) e diesel renovável (HVO)", afirma William Nozaki, gerente executivo de transição energética da estatal. De acordo com o executivo, a empresa está preparada para utilizar rotas de óleos vegetais, como a soja, e a rota de etanol (ATJ), através da cana-de-açúcar e do milho.

Mas o custo ainda é uma barreira importante. Cezar Mattar, líder de relações regulatórias e certificação de biocombustíveis da Acelen, aponta que o SAF pode custar até quatro vezes mais que o combustível fóssil tradicional. Apesar disso, o impacto ambiental justifica o investimento: "A estimativa é de que 65% da redução de emissão da aviação virá pelo SAF", destacou. "Enxergamos o Brasil com alto potencial de surfar a onda de SAF, já provamos a capacidade de produzir biocombustíveis e acreditamos que a SAF será a próxima agenda", completou Mattar.

Christini Kubo, diretora de combustíveis renováveis para a América do Sul da Bunge, ressalta a rastreabilidade total da cadeia produtiva da empresa. "Anunciamos hoje a primeira produção de SAF feito de soja de baixa emissão. Temos certificação para nossa soja, com selo que conseguimos demonstrar que a produção de soja aconteceu por incremento de produtividade na mesma área", relatou Kubo.

No cenário internacional, a Neste, produtora de SAF, trouxe metas agressivas de expansão utilizando a tecnologia HEFA. "A empresa está aumentando sua produção de SAF para 2,2 milhões de toneladas em 2027", afirmou Pratik Chandhoke, gerente de aviação renovável da companhia, com foco em aumentar a eficiência e oferecer soluções com menos emissões aos clientes.

Para que o combustível chegue às aeronaves, a logística de distribuição brasileira precisará se adaptar. Guilherme Paiva, diretor de operações na Vibra, demonstra otimismo para o calendário de 2027, mas alerta para as necessidades de infraestrutura: "Estamos animados com esse desafio de trazer o SAF. Mas vamos ter de criar uma estrutura para atender a complexidade logística".

A Raízen também iniciou seu movimento no mercado, afirmou Leticia Dranka, responsável pela garantia de qualidade nos aeroportos. "Já estamos fazendo o movimento de comprar SAF. O desafio é entregar em 2037 os 10% do combustível".

Na visão das companhias aéreas, a viabilidade do SAF exige cuidado na formulação de políticas públicas. Simone Warmbrand, Country Manager da IATA no Brasil, alerta para os riscos de desequilíbrio no setor. "O potencial de produção de SAF é subutilizado hoje, principalmente pela questão do custo. Políticas mal calibradas podem produzir mercados desequilibrados. E o mercado de SAF hoje ainda é apenas uma coleção de negócios, sem integração".

Para Luciana Zotelli, coordenadora técnica da Peterson Solutions, a segurança e a transparência do novo mercado dependem rigorosamente de certificações. "É importante mapear o cenário para os clientes, identificando os materiais elegíveis, para auxiliar na certificação". O Brasil já demonstra evolução nesse quesito, de acordo com Eduardo Adum Poles, analista da consultoria Control Union, que enfatiza a necessidade de preparação para o CORSIA (compensação e redução de carbono para a aviação internacional). "No Brasil temos 51 certificados CORSIA ativos e temos projeção para atingir 146 até 2030", revela Poles, destacando que as principais atividades certificadas atualmente são os pontos de coleta agrícola.

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