Petrobras

Gasolina vai continuar cara mesmo com troca do presidente da Petrobras

Redação TN Petróleo, Agência Brasil
29/03/2022 06:03
Gasolina vai continuar cara mesmo com troca do presidente da Petrobras Imagem: Divulgação Visualizações: 2386

A demissão do presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna -- ainda não oficializada, mas confirmada pelo Ministério de Minas e Energia nesta segunda-feira (28/3) ---, não deve mudar a política de preços da estatal, avaliam economistas que atuam no mercado financeiro.

Segundo os analistas, a demissão é uma ação política do presidente Jair Bolsonaro (PL) para deixar claro à sua base em ano eleitoral seu descontentamento com a alta de preços dos combustíveis, após o forte reajuste promovido pela Petrobras no início de março, com aumento de 25% do diesel, 19% da gasolina e 16% do gás de botijão.

Mas, assim como aconteceu com a demissão de Roberto Castello Branco em fevereiro de 2021, após um reajuste de 14,7% no diesel e 10% na gasolina pela estatal naquele mês, os economistas avaliam que a saída de Silva e Luna não deve resultar em uma mudança significativa nos rumos da empresa.

Ainda mais que o nome escolhido para substituir Silva e Luna é o do consultor Adriano Pires (foto), diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e que foi conselheiro para a área de energia da campanha de Aécio Neves (PSDB) em 2014.

O novo presidente da Petrobras foi um feroz crítico da política de controle de preços durante o governo de Dilma Rousseff (PT) e é um defensor vocal da paridade internacional modelo em que o preço dos combustíveis no mercado interno segue a variação de itens como o preço do barril de petróleo no exterior e a cotação do dólar.

Em entrevista à BBC News Brasil ao fim de fevereiro, por ocasião do início da guerra na Ucrânia, Pires defendeu que o petróleo em alta é bom para o Brasil, apesar de gerar inflação, porque o país é produtor e exportador do óleo e, portanto, a arrecadação de impostos da União, Estados e municípios cresce quando os preços sobem.

"Não é fácil alterar a política de preços"
"A mudança é ruim, porque mostra que o governo está interferindo na empresa", avalia Gabriel Leal de Barros, sócio e economista-chefe da gestora de recursos Ryo Asset.

"Não quero minimizar essa interferência política, mas acredito que o mercado já entendeu que a forma de Bolsonaro conduzir é ruidosa, sem que no final do dia tenha mudança material na política da empresa", observa.

Com a entrada do Silva e Luna. Estamos vivendo novamente o que vivemos quando Castello Branco saiu, que o mercado ficou superapreensivo e, no fim das contas, o Silva e Luna não alterou [a paridade de preços]. A verdade é que não é fácil alterar a política e o mercado entendeu isso", conclui o analista.
Para José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, a descrença do mercado com relação a uma mudança na política de paridade se reflete na pequena queda das ações da Petrobras nesta segunda-feira.

As ações ordinárias da empresa (aquelas com direito a voto) caíram 2,63%, negociadas a R$ 34,08, e as preferenciais (sem direito a voto) recuaram 2,17%, cotadas a R$ 31,60.

Os papéis já estavam em queda mesmo antes da notícia da provável demissão, devido à baixa nos preços do petróleo nessa segunda-feira, com o endurecimento do lockdown contra a covid-19 na China, que gera preocupações sobre o crescimento da economia do país asiático.
"Uma queda de 2,6% é pouca coisa, aparentemente o pessoal não está levando muito a sério", observa Gonçalves.

"Como já aconteceu isso [a demissão de um presidente da Petrobras sob Bolsonaro após reajuste de preços], isso é visto mais como uma ´esperneada´, uma tentativa de Bolsonaro de dizer ´eu faço o que consigo, mas o pessoal não ajuda´, como ele tem feito recentemente", observa.

Brasil
Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, compartilha da visão dos colegas, de que a mudança de política é improvável, mas reforça que ela seria muito negativa para a economia e bastante malvista pelo mercado.

"Seria bem negativo, não só para a Petrobras, mas também do ponto de vista fiscal, porque controle de preços nunca é bem visto. Não funciona para a controlar a inflação e só cria mais estresse, porque o preço represado gera mais expectativa de inflação no futuro", diz Vitória.

"Se de fato houver uma mudança na política e uma redução forçada de preços, isso pioraria a expectativa de juros, num momento em que o Banco Central finalmente conseguiu ancorar as expectativas de alta para a Selic em 12,75%. O BC ter que subir mais juros, se as expectativas piorarem novamente, pode impactar no crescimento da economia", acrescenta.

"Petróleo em alta é bom para o Brasil"
Cotado para assumir a presidência da Petrobras, o consultor do setor de energia Adriano Pires é um defensor histórico da política de paridade de preços.
A Petrobras adotou o chamado PPI (Preço de Paridade de Importação) em 2016, após anos praticando preços controlados, sobretudo no governo Dilma Rousseff. O controle de preços era uma forma de mitigar a inflação, mas causou grandes prejuízos à petroleira.

Por essa política, em momentos como o atual, em que o petróleo está mais caro no mercado internacional devido aos efeitos da guerra na Ucrânia, os preços dos combustíveis ficam mais caros no mercado interno.

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