Etanol
Agência UDOP/ Agência Estado
Depois da tempestade causada por seu antecessor, que classificou a produção de biocombustíveis de “crime contra a humanidade”, o novo relator para o Direito à Alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU) defendeu ontem (22) um olhar diferente para o álcool brasileiro. Para o belga Olivier de Schutter, o combustível de cana-de-açúcar causa menos danos ao ambiente e tem menor impacto no preço dos alimentos que outros. Em seu primeiro pronunciamento no conselho desde que, há três semanas, assumiu o cargo que era do sociólogo suíço Jean Ziegler, o relator não condenou o etanol brasileiro, mas ainda quer informações da parte de especialistas para declará-lo como “inocente” na atual crise. “Estou aberto a um debate”, afirmou.
Ainda assim, Shutter deixou claro que a ONU não abandonou a batalha contra os biocombustíveis. A entidade condena a produção na Europa e nos Estados Unidos e pede o fim da expansão, investimentos e subsídios nos programas de biocombustíveis desses países. O relator apelou ontem para que americanos e europeus abandonem suas metas de expansão do etanol como forma de ajudar a lidar com a crise na alta dos preços de alimentos. Para ele, ao abandonar as metas, o mundo estará mandando uma “mensagem forte” contra a especulação no setor de commodities.
O apelo foi feito ontem, durante a reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas convocada por Cuba. Governos de todo o mundo discutiram a crise da alta dos preços de alimentos e aprovaram uma resolução enfraquecida que apenas pede que o combate à fome seja a prioridade de todos. O Brasil lamentou que não tenha havido uma condenação mais dura contra os subsídios dos países ricos.
“Proponho o congelamento de todos os novos investimentos e subsídios favorecendo a produção de combustível com grãos plantados em terras aráveis quando essas terras poderiam ser usadas para a produção de alimentos”, afirmou o relator, e criticou os programas de biocombustíveis na Europa e nos Estados Unidos. “O impacto pode ser dramático”, afirmou. Ele criticou ainda a importação do etanol de óleo de palma da Ásia, que estaria destruindo florestas.
Por seus cálculos, os americanos destinam 25% da produção de milho ao etanol e, até 2020, a meta é produzir 36 bilhões de galões do combustível. Na Europa, a meta é ter 10% dos carros movidos a etanol até 2020. “Essas metas são irrealistas. Se abandonarmos, estaremos mandando um sinal forte aos mercados de que os preços de alimentos não vão aumentar infinitamente, desencorajando a especulação.”
Etanol brasileiro
Embora tenha admitido que a situação do etanol brasileiro é “diferente”, Shutter alertou que ainda não está convencido de que a cana não representa uma ameaça.
Por conta disso, o Brasil saiu em defesa do etanol. Ao terminar uma das reuniões, o embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Florêncio, foi até o relator e deixou claro que o país não estava de acordo com sua visão. “Não compartilhamos de sua avaliação”, afirmou o diplomata a Shutter. Essa não é a primeira disputa entre o Brasil e um alto funcionário das Nações Unidas. O ex-relator da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, já havia pedido uma interrupção na produção do etanol como uma das formas de evitar uma crise nos alimentos. A classificação do etanol como “um crime contra a humanidade”, provocou respostas até do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e exigiu do governo brasileiro um esforço diplomático para reverter os comentários.
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