Mercado

Mauá vive momentos de incerteza

Ontem pela manhã, sob um calor que prenunciava a proximidade do verão carioca, funcionários com uniformes azuis davam os últimos retoques nos acessos ao estaleiro Mauá, na Ponta d'Areia, em Niterói (RJ), onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Valor Econômico
19/11/2010 08:59
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Ontem pela manhã, sob um calor que prenunciava a proximidade do verão carioca, funcionários com uniformes azuis davam os últimos retoques nos acessos ao estaleiro Mauá, na Ponta d'Areia, em Niterói (RJ), onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje mais um navio do programa de renovação da frota da Transpetro, a subsidiária de logística da Petrobras.

 

 

Nas costas dos uniformes dos empregados, podia-se ler: EISA, a inscrição que designa o Estaleiro Ilha S.A., com sede na Ilha do Governador, bairro da zona norte do Rio. O EISA tem três mil funcionários e uma parte deles já participa de forças-tarefa no Mauá. Os dois estaleiros, controlados pelo Synergy Group, de German Efromovich, estão em fase de integração operacional depois de uma reestruturação que resultou este ano na troca da diretoria do Mauá e na demissão de cerca de 500 empregados. Hoje o estaleiro tem cerca de 4 mil trabalhadores.

 

 

 

Em julho, circularam informações de que o Mauá poderia demitir entre mil e mil e quinhentas pessoas. A previsão não se confirmou e os cortes atingiram basicamente empregados da área administrativa. No "chão de fábrica" não houve demissões em massa. O ajuste de pessoal foi resultado da redução de encomendas no estaleiro. Nos últimos anos, o Mauá tem enfrentado dificuldades para ganhar obras da Petrobras. Fonte próxima ao estaleiro disse que a Petrobras convida o Mauá para algumas concorrências, mas não o chama para as licitações que mais interessam, como no caso das 28 sondas de perfuração de poços de petróleo, negócio que pode exigir investimentos superiores aos US$ 25 bilhões. Na avaliação da fonte haveria uma "restrição branca" da Petrobras ao Mauá, mas não soube indicar se entre as possíveis razões estaria o passado de contenciosos de Efromovich com a estatal ou o fato de um ex-executivo do Mauá ter sido denunciado, em 2007, em operação da Polícia Federal que investigou superfaturamento na reforma de plataformas. Procurada, a Petrobras negou que exista tal restrição.
 
 
 
Com espaço disponível, várias empresas procuraram o Mauá interessadas em parcerias. O estaleiro terminou fechando contrato de arrendamento de parte das instalações com a Andrade Gutierrez por prazo de dez anos, mas a viabilidade do acordo depende de a empreiteira ganhar algum contrato da Petrobras. A construtora disputa a licitação das sondas. Por meio da assessoria, a Andrade Gutierrez afirmou: "A conquista de uma obra [pela empresa] na área de petróleo e gás apenas consolida o acordo Mauá/AG, podendo as partes decidir pela sua consolidação independente deste evento."
 
 
A Andrade disse que, por enquanto, não existem funcionários da empresa trabalhando no estaleiro. Juntos Mauá e EISA devem faturar este ano US$ 650 milhões, dos quais algo como US$ 400 milhões vão corresponder ao Mauá, cujas instalações são dedicadas à construção de navios e de plataformas de petróleo e gás.
 
 
Os outros US$ 250 milhões serão garantidos pelo EISA, especializado em fazer navios de grande porte. "O potencial de faturamento do Mauá é de US$ 1 bilhão por ano", estimou Jorge Roberto Coelho Gonçalves, que responde pela direção comercial dos dois estaleiros e também acumula a presidência do EISA. No total, o Mauá tem em carteira quatro navios da Transpetro para o transporte de derivados de petróleo em contratos que somam US$ 277 milhões.
 
 
O estaleiro estava na expectativa de acertar a construção de mais três navios com a Transpetro, mas ontem o presidente da empresa, Sérgio Machado, informou que a negociação com o estaleiro - que concorria sozinho para construir as embarcações - não chegou a bom termo por divergências de preço. A Transpetro decidiu abrir uma nova licitação para os três navios em até 60 dias. No processo de reestruturação, o pai de Gonçalves, Manuel Ribeiro, 73 anos, passou a presidir o Synergy Shipyard, braço de estaleiros do grupo.
 
 
Além do Mauá e do EISA, empresas tradicionais da indústria naval no Rio, o Synergy tem projeto para construir em Alagoas um estaleiro, o EISA Alagoas, com investimento de R$ 1,5 bilhão. O EISA Alagoas também está no páreo pela construção no Brasil das sondas de perfuração da Petrobras. Com as mudanças, Ribeiro também assumiu este ano a condução do Mauá, embora o Synergy procure um executivo para o cargo.
 
 
A ideia é deixar Ribeiro na coordenação das diferentes empresas do grupo na área naval, disse, em recente entrevista ao Valor, German Efromovich, presidente do Synergy Group. O empresário não descarta a possibilidade de abrir o capital dos estaleiros no futuro, assim como Eike Batista fez com a OSX. "Se vamos ao mercado, pode ser atrativo para o investidor dado o potencial de negócios que existe no Brasil nos próximos 20 anos."
 
 
Jorge Gonçalves, o diretor comercial, disse que a integração operacional inclui as áreas jurídica, comercial e financeira. A contabilidade também está em processo de integração. O objetivo é reduzir custos e fazer EISA e Mauá ganharem competividade.
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